Quando a gente começa a enxergar defeitos em quem ensinou a gente a viver, é desrespeito?

O Cego que Coleciona Histórias: 18º Encontro

A quermesse de São Pedro seguia animada. O sino da igreja acabara de tocar, crianças corriam atrás de balões e o locutor do bingo tentava vencer o barulho das conversas. O cheiro de frango assado e quentão passeava entre as mesas espalhadas pela praça.

O Cego estava sentado perto da barraca dos doces quando uma cadeira raspou devagar.

— Sou o Tadeu. Meu pai é dono da loja mais antiga da avenida. Posso me sentar um pouco?

O Cego fez sinal de sim com a cabeça. 

Ele demorou alguns segundos antes de começar.

— Estou bravo com o pai.

A indignação vinha antes das palavras.

— Vive dizendo que ama o Brasil. Para a Copa encheu a loja de bandeiras, colocou música patriótica... 
— Mas não dispensou os funcionários durante os jogos da Seleção.

Ao longe, alguém comemorou um prêmio do bingo. Palmas cobriram o silêncio por alguns instantes.

— Sabe o pior? Eu cresci admirando meu pai. Mas estou descobrindo um pai que eu nunca imaginei.

Uma voluntária deixou sobre a mesa um prato de amendoim torrado.

Tadeu pegou alguns grãos e esfregou entre as mãos para tirar a pele.

— Quando eu era pequeno, ele fechava a loja mais cedo pra me levar ao campo da cidade. Dizia que futebol era desculpa pra juntar gente.

A sanfona voltou a tocar.

O Cego passou os dedos pela borda do prato.

— Às vezes a lembrança continua fazendo uma pergunta que o presente ainda não respondeu.

Ele respirou fundo.

O locutor anunciou outra rodada. As pessoas arrastaram cadeiras pela praça.

Tadeu levantou devagar. Apertou o ombro do Cego e disse baixinho:

— Talvez o que esteja doendo não seja o homem que ele é... mas a falta daquele pai que eu ainda escuto quando a torcida canta o hino.



Descrição da Imagem:

A imagem retrata uma quermesse de fim de tarde em uma pequena cidade do interior, iluminada pela luz quente do pôr do sol.


À esquerda está o protagonista da série: um homem cego, de aparência madura e postura serena. Usa boina marrom, óculos escuros, camiseta azul, calça clara de algodão cru e sandálias de couro. Sentado em uma cadeira de madeira, apoia uma das mãos sobre o cajado e a outra junto ao rosto, demonstrando atenção enquanto escuta.


À direita está Tadeu, um homem jovem de camiseta verde-oliva. Inclinado para a frente, conversa com gestos expressivos e semblante de inquietação.


Entre os dois há uma mesa rústica com toalha xadrez, duas canecas esmaltadas, um prato de amendoins torrados e uma pequena lanterna acesa.


Ao fundo, a praça da igreja recebe a quermesse de São Pedro. Bandeirinhas coloridas, mesas ocupadas pelos moradores, luzes decorativas e a igreja ao centro compõem o cenário. À direita aparece a barraca do bingo com seu letreiro iluminado.


À esquerda da cena, uma árvore antiga abriga dois quadros decorativos. Um traz a frase: "Cada história que ouvimos nos muda um pouco por dentro." O outro anuncia: "Quermesse de São Pedro — Fé, Partilha, Comunidade, Amor."


Flores discretas no canto inferior esquerdo completam a composição. O enquadramento horizontal e a luz suave reforçam o clima acolhedor e intimista da conversa em meio à festa.


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