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Capítulo 9: Raiz não faz barulho

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pare, leia e reflita A Gatuna diminui antes de eu pedir. Quando isso acontece, sei que não é distração. É aviso. Algumas cidades não querem ser atravessadas,  querem ser sentidas. Herculândia- SP é assim. Ela não se apresenta. Ela espera. Aqui, o tempo não corre. Ele trabalha. O cheiro de terra recém mexida chega antes das vozes, antes das casas, antes das histórias contadas em palavras. Descubro que essa cidade aprendeu a sobreviver fazendo duas coisas ao mesmo tempo: colhendo rápido e esperando muito. O amendoim sustenta o agora. As mudas, cuidadas em chácaras, apostam num futuro que quem planta talvez nunca veja. A moto para perto de uma delas. Escuto água correndo em mangueiras finas, passos lentos, mãos que lidam com plantas pequenas demais para chamar atenção. Alguém comenta, quase como quem não percebe a grandeza do que diz, que dali saem árvores para outras cidades. Herculândia não cresce só para si. Ela es...

📖 CAPÍTULO 8: QUINTANA, O QUINTAL DO TEMPO

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O Cego e Sua Moto: Entre o Real e o Imaginado 💡 Há lugares que não pedem licença para entrar na gente.  Foi assim quando a Gatuna desacelerou ao entrar em Quintana. Pequena no tamanho, imensa no silêncio que carrega. Sinto o estalo do metal quente do motor esfriando, um som seco que marca a nossa chegada. Dizem que a cidade nasceu de um quintal,  uma pequena quinta perdida entre trilhos e vontades. Antes de ter nome, já tinha espera. Antes de ter igreja, já tinha fé. Antes de ter estação, já tinha gente sonhando com chegada. Eu não vejo Quintana com os olhos. Vejo com o que ficou no ar. Sinto o eco distante do trem que um dia prometeu futuro, o barulho manso da terra sendo mexida à mão, o sotaque misturado de quem veio de longe para fincar raiz. Há um cheiro de café passado sem pressa, de madeira antiga aquecida pelo sol, de conversa baixa atravessando a tarde. É o "real" do olfato encontrando o "imaginado" da minha mente. A moto para. O tempo t...

💡 Capítulo 7: Do nada, o tudo

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Só quem sente, percebe! Atraído pelos sons de Pompéia, resolvo continuar passando pelo trecho que a maioria dos moradores da cidade considera o mais perigoso da Via Expressa, a descida do Panelão e do Campão. A Gatuna me leva, e encontramos um ponto exato de latitude e longitude, uma coordenada perfeita onde ocorre uma fusão incrível, uma verdadeira zona de convergência sonora. Primeiro, os sons são tímidos, depois, logo se enchem, vibrantes: as vozes dos alunos das escolas Grupão - EMEF de Pompéia e do CENE - Escola Estadual Cultura e Liberdade. Ali, tudo junto e misturado. O real e o imaginado se fundem no som do futuro. Risadas, chamados, gritos... Um alvoroço de alegria. O burburinho vivo de estudantes aprendendo a ser gente. Eu sorrio. Aquele sorriso largo que a escuridão não consegue apagar. No ronco da Gatuna, me dou conta de que a cidade tem um grito e é um grito bonito. Não é de desespero, mas de vida, de...

📢 Capítulo 06: Alô Pompeia, tô na Via Expressa

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🏍️😎🧑‍🦯Serie - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Via Expressa - ritmos, movimentos  e sons Atravessamos o portal da cidade e adentramos em Pompéia, a Cidade Coração. Gatuna buzina e ronca sem parar, pois ela sabe que aqui é a terrinha, o onde nasci e vivi minha infância e adolescência. Para quem mora por aqui, o trecho urbano da Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a SP-294, é chamada de Via Expressa. Um espaço onde os veículos passam com mais intensidade, tanto na quantidade quanto na velocidade. Um território de tensão, uma fronteira no qual a cidade e a rodovia ainda tentam se tolerar. Lembro das travessias quase impossíveis de quando enxergava, o medo que eu fingia não ter, a coragem que eu queria que acreditassem que eu tinha. Hoje, sem a visão, mas com outros sentidos mais acordados, entendo: ninguém cruza a Via Expressa só com o corpo. Cruza-se com cálculo. Com atenção. Com cautela. Prossigo devagar, Quem não vê aprende a sentir antes de acelerar. É e...

📖 Capítulo 5: Ano Novo: Quando a Estrada Volta a Chamar

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 👉 Todo começo é uma possibilidade que pede coragem para virar realização. O Ano Novo não chega em silêncio. Ele chega como estrada aberta. Na linha tênue Entre o Real e o Imaginado, os primeiros dias do ano não são sobre promessas ditas em voz alta, mas sobre decisões íntimas. O motor liga cedo. Não porque há pressa, mas porque ficar parado também é uma escolha. Em Pompéia, o ano começa com memória no bolso. O cego sabe de onde vem, e isso importa. Possibilidades não nascem do nada; elas brotam do que foi vivido. Cada lembrança vira base. Cada história, impulso. A estrada leva a Quintana, onde o novo ano ensina que nem toda realização precisa ser grande para ser verdadeira. Às vezes, realizar é continuar. É não desistir. É manter o rumo quando tudo parece pequeno demais para importar — mas importa. Já em Herculândia, o Ano Novo chama mais no corpo. Terra, trabalho, constância. Aqui, possibilidades só se tornam concretas ...

📖 Capítulo 4: O Natal dos sentidos

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 🎄 O Natal chega diferente quando se anda por estradas que não dependem dos olhos. Nem todo Natal precisa ser visto para ser sentido. Basta ser vivido, e se possível com muita intensidade! Entre o real e o imaginado, no mundo do Cego e da Gatuna, o período natalino não é marcado por luzes piscando em vitrines, mas por sons que tocam. O ronco baixo da moto corta a SP-294, em plena região da Alta Paulista, como um fio invisível, ligando cidades que aprenderam a existir longe dos grandes centros e perto demais da própria resistência. Em Pompéia, o Natal tem cheiro de quintal antigo e conversa atravessada no portão. É onde a memória insiste em permanecer. Ali, o cego não vê as casas enfeitadas, mas reconhece o tempo pelo som dos familiares e amigos. O Natal, em Pompéia, é reencontro com aquilo que nunca foi embora. A estrada segue até Quintana, pequena, quase silenciosa. No Natal, a cidade ensina que nem toda celebração preci...

📖 CAPÍTULO 3: A GATUNA MÍTICA - O PACTO

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua noto: Entre o real e o imaginado Quando passo a mão pelo tanque da Gatuna, não sinto apenas metal. Sinto algo que pulsa, que guarda memórias que não são minhas. Cada risco, cada imperfeição, parece carregar um tempo que eu não vivi, mas que, de algum modo, me escolheu. Giro a chave. Acordá-la é um rito. A Gatuna não liga: ela revive. Seu ronco se espalha como um chamado que vem do fundo do mundo. A vibração sobe pelo meu braço, atravessa o peito e encontra o ritmo do meu coração. É como se dissesse: “Pronto. Agora somos um só sistema, uma organização única, um único mecanismo.” No meu imaginário, tudo fervilha... Seria a Gatuna uma lenda mitológica que se materializou? Seria a Matrix tentando me engolir? Ou minha própria consciência me orientando na caminhada? Seja o que for, fiz um pacto com ela: vamos percorrer as cidades da Alta Paulista, em busca de histórias, saberes e novas descobertas. Na nossa primeira temporada, começamos por Pompéia, Quintana, ...