A dona Zizi também te benzeu?
O Cego que Coleciona Histórias — 17º Encontro A paineira da praça da fonte continuava espalhando sombra sobre o banco de madeira gasto pelo tempo. O sino da igreja tinha acabado de bater três horas. O Cego estava sentado ali quando ouviu passos lentos se aproximando, arrastando as chinelas. — Sou a Zilma, disse uma voz envelhecida... O povo me conhecia como a dona Zizi benzedeira. Ela se sentou ao lado dele. O banco respondeu com um rangido comprido. Por alguns instantes, ficaram ouvindo o vento mexer nas folhas. — Ainda benze? Perguntou o Cego. — Ainda. A resposta veio rápida. Depois demorou. — Mas quase ninguém aparece mais. Zizi mexeu em alguma coisa dentro da bolsa. — Carrego isso comigo há mais de quarenta anos. Ela colocou um pequeno caderno nas mãos do Cego. As páginas estavam gastas nas bordas. — O que tem aqui? perguntou ele. — Nome de gente. Ela deu uma pausa. — Criança com susto. Olho gordo. Bico de papagaio. Quebranto. espinhela caída. Também fiz muitos partos. O vento viro...