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O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro

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O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo? O avô Antônio e as Figurinhas da Copa A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi. O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente. Plástico sendo ajeitado. Depois outro. Os passos adentraram o portão. — Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio. O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando. — Álbum? perguntou o Cego. Antônio riu. — Como você sabe? — Figurinha tem um barulho próprio. O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória. — A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira. Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos ne...

O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro

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 O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...

O Cego que coleciona histórias: 10º Encontro

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 O que revela o invisível quando nos deixamos escutar? O dom do ouvir Dizem que o silêncio é ausência. Para o Cego, nunca foi. É nele que as histórias respiram antes de nascer. Desde que o cajado cruzou seu portão, algo mudou. A casa segue a mesma, as paredes não se moveram, mas o ar… aprendeu outro ritmo. O cajado repousa encostado, como quem dorme de olhos abertos. Não chama atenção. Mas quando o cego o firma no chão, o mundo desacelera. As palavras perdem a pressa. E, por um instante raro, ninguém precisa fingir. Há dias em que a madeira pesa. Não nas mãos, mais fundo, como se carregasse aquilo que não foi dito direito. Em outros, aquece devagar, quase imperceptível, como se reconhecesse algo leve demais para virar palavra. O cego não pergunta muito. Aprendeu que nem toda verdade gosta de ser interrogada. Algumas só aparecem quando encontram espaço. Quem chega traz um nó. Quem sai, às vezes, ainda o carrega, mas já sabe onde ele começa. O cego não guarda as histórias. Nunca guar...

O Cego que coleciona histórias: 9º Encontro

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 Vale a pena se perder… pra não perder tudo? O sol da manhã já tinha tomado a calçada do edifício da redação quando ela chegou. Passos rápidos. Parou. O som do papel sendo amassado na mão dela era seco, nervoso. Parecia o som de uma pele que descola. O vento carregava cheiro de café velho com papel esquecido. Ao fundo, um locutor ainda falava, como se o mundo não soubesse parar.  Foi então que ela percebeu o Cego. Ele estava imóvel, mas o som das batidas rítmicas e lentas de seu cajado no concreto pareciam contar os segundos que ela não tinha. Toc-toc-toc. — Me pediram pra não publicar… Camila, jornalista, tinha nas mãos um esquema sujo. Provas suficientes. Nomes influentes da cidade. Mas o dono do portal mandou segurar. Se publicasse, perdia o emprego. Se obedecesse, perdia a si mesma. — Eu lutei tanto pra chegar até aqui… e agora parece que tenho que escolher entre tudo isso e quem eu sou. O cego parou a batida do cajado. O silêncio que se seguiu pesou mais que o sol. — O pa...

O Cego que coleciona histórias: 8º Encontro

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Por que alguém que parece ter todas as respostas ainda carrega tanta raiva no peito? O sol batia forte na Pedra, na esquina do banco em frente à padaria. O cheiro de pão quente saía da porta aberta e se misturava com o odor acre da gasolina dos carros. Alguém batia o pé no chão, um ritmo seco e nervoso, como quem espera briga. O Cego parou. O cajado tocou o meio-fio, toc-toc-toc. Sentiu o ar pesado, o cheiro de suor ácido e o som do tecido sintético de uma camisa sendo repuxado no peito. — Tô aqui, seu Cego. Sou o Jorjão, o corretor. Todo mundo me conhece... A voz era grossa e carregava uma urgência que não pedia licença. — Chegou tem que me ouvir... —Vacina? Tomo nem amarrado. Mulher minha não sai da cidade pra estudar, não. Em casa, quem dá a última palavra sou eu. Sempre foi assim. Agora, tão falando que eu tenho que me cuidar.  vou comprar aquela canetinha pra emagrecer pela internet. Barato. Sem depender dessa máfia aí de médicos e laboratórios. Ele riu curto. A mão amassava u...

O Cego que coleciona histórias: 7º encontro

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Quem cuida de quem cuida? O banco de cimento em frente à Santa Casa era um local de espera, para alguns de alegria e para outros de tristeza.  Gente entrando e saindo, passos apressados, o barulho de uma maca, uma sirene distante que não terminava nunca. O Cego parou antes de sentar. Ouviu o tecido do uniforme roçar; alguém sentou-se sem cerimônia. — Meu nome é Marta… técnica de enfermagem.  A voz vinha cansada antes mesmo das palavras.  — Plantão longo? — perguntou ele, encostando o cajado no banco. — Tem plantão que não acaba quando a gente sai — ela soltou um riso curto, quase um engasgo. Um carro passou devagar. Um choro de criança vinha da sala de espera. — Hoje eu esqueci de dar boa noite pro meu filho. Faz três dias que só o vejo dormindo.  O som do estalar de dedos dela denunciava o nervosismo. — Lá dentro, a gente segura a mão de quem tá indo embora. Fala que vai ficar tudo bem… mesmo sabendo que não vai. O vento trouxe cheiro de álcool hospitalar e café req...

O Cego que Coleciona Histórias: 6º Encontro

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Até onde vai o preço de dizer não? A sombra da árvore na praça da matriz de São Pedro, segurava o calor da tarde como conversa antiga. O ar parecia suspenso em Tupã- SP. Um motoqueiro passou acelerando, o escapamento estourado rasgando o silêncio da rua. Toc-Toc-Toc. A ponta do cajado encontrou a calçada até parar junto ao banco já gasto pelo uso. O Cego percebeu passos firmes se aproximando. A respiração vinha pesada. Não era só cansaço. — Boa tarde… meu nome é Durval. Sou fiscal da prefeitura. Ele limpou a garganta, como quem organiza o que ainda está confuso por dentro. — Posso te contar algo muito sério que aconteceu comigo? O Cego inclinou levemente a cabeça. — Ontem fechei uma lanchonete na avenida Tamoios. Falta de higiene. Um carro passou com o som grave vibrando o ar ao redor. — O dono me chamou no canto… disse que dava um jeito. Durval parece ter chutado um pedregulho. — Jeito quer dizer dinheiro. O vento mexeu as folhas do galho acima deles. — Eu disse não. O silêncio que ve...