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A dona Zizi também te benzeu?

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O Cego que Coleciona Histórias — 17º Encontro A paineira da praça da fonte continuava espalhando sombra sobre o banco de madeira gasto pelo tempo. O sino da igreja tinha acabado de bater três horas. O Cego estava sentado ali quando ouviu passos lentos se aproximando, arrastando as chinelas. — Sou a Zilma, disse uma voz envelhecida... O povo me conhecia como a dona Zizi benzedeira. Ela se sentou ao lado dele. O banco respondeu com um rangido comprido. Por alguns instantes, ficaram ouvindo o vento mexer nas folhas. — Ainda benze? Perguntou o Cego. — Ainda. A resposta veio rápida. Depois demorou. — Mas quase ninguém aparece mais. Zizi mexeu em alguma coisa dentro da bolsa. — Carrego isso comigo há mais de quarenta anos. Ela colocou um pequeno caderno nas mãos do Cego. As páginas estavam gastas nas bordas. — O que tem aqui? perguntou ele. — Nome de gente. Ela deu uma pausa. — Criança com susto. Olho gordo. Bico de papagaio. Quebranto. espinhela caída. Também fiz muitos partos. O vento viro...

O Cego que Coleciona Histórias — 16º Encontro

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 Já brigou por um posicionamento e perdeu alguém? O bar do Santana estava naquela hora da tarde em que as pessoas passavam por lá para saberem os comentários da cidade. O cheiro de torresmo frito chegava antes de qualquer voz. Foi o Santana que chamou o Cego... — Senta aqui, Cego. Tem um sujeito precisando mais de conversa do que de cerveja. Ouviu a cadeira arrastar. — Sou o Gilberto, disse a voz ao lado do Cego.  Apertou a mão dele. Ela chegou firme. Mas voltou devagar. — Briguei com meu genro no grupo da família. Fez barulho ao pegar o copo. Colocou de volta na mesa sem beber. — Política. A palavra caiu pesada entre eles. Do outro lado do balcão, alguém pediu uma dose. Gilberto continuou: — Falei coisa que não devia. Saí do grupo. Ele também. O barulho dos dedos dele batendo no tampo da mesa parecia procurar alguma coisa. — E agora? — Agora nada. Ficaram em silêncio. Então o Cego ouviu o som de folhas de jornal. — Tô com isso levando pra cá e pra lá faz três dias. — Descobri...

O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro

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 Você ganhou o mundo. E a si mesmo? A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde. O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. O Cego caminhou até um dos bancos da praça. Ali, alguém suspirou antes de falar. — Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida. A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo. O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores. — E encontrou o que ? Cléo soltou uma risada breve. — Encontrei tudo. O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta. — Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem. Enquanto falava, girava algo entre os dedos. O Cego ouviu o leve atrito das contas. — Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos. O terço continuava deslizando entre seus dedos. — Estranho... nunca...

O Cego que Coleciona Histórias: 14º Encontro

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 Há pessoas que não deixam um lugar de uma vez... Vão saindo aos poucos, até esquecerem o caminho de volta. Juca chegou sem anunciar a própria chegada. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. Havia cansaço nos passos. Não o do corpo, mas o de quem passou anos longe de si mesmo. O Cego percebeu antes da voz. Aquele homem carregava um silêncio antigo. Não o de quem não fala, mas o de quem repetiu tantas vezes a própria história por dentro que as palavras perderam a força de sair. Sentou-se. A cadeira rangeu. — Faz muito tempo — disse. — Eu nunca mais voltei. — Voltou onde? — perguntou o Cego. Juca respirou fundo. — Na minha cidade. Na terrinha onde nasci. — Fui embora achando que era provisório. Trabalho, estudo… essas promessas que fazem a gente acreditar que ainda vai dar tempo. Estalou os dedos. Um som seco. — Depois, um ano virou outro. E, quando percebi… não sabia mais voltar. O Cego ouviu o que existia atrás da frase: não era distância. Era desenraizamento. — E o que ficou lá? Ju...

O Cego que Coleciona Histórias: 13º Encontro

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 “Como seguir em frente quando não existe certeza sobre o caminho certo?” Nika entrou sem bater, como se já soubesse que aquele espaço não exigia explicações. O Cego percebeu a presença antes mesmo do som da porta terminar de se fechar. Havia nela uma hesitação que não era de passos, mas de destino. Sentou devagar, as mãos apertando a alça da mochila escolar como quem tenta segurar algo que já está escorregando há muito tempo. — Eu não sei o que fazer da minha vida, Disse, quase num sopro. O Cego inclinou a cabeça levemente, como se escutasse mais do que a frase. — Dezessete anos, Nika  continuou: e todo mundo parece saber. Medicina, direito, engenharia… e eu só sinto um vazio quando tento escolher. Lá fora, um ônibus passou rápido demais para aquela rua estreita. Dentro, o tempo parecia não ter pressa. — E se eu escolher errado? ela perguntou. — E se eu me prender numa vida que não é minha? O Cego respirou antes de responder, como quem procura palavras que não machuquem. — O ...

O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro

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O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo? O avô Antônio e as Figurinhas da Copa A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi. O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente. Plástico sendo ajeitado. Depois outro. Os passos adentraram o portão. — Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio. O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando. — Álbum? perguntou o Cego. Antônio riu. — Como você sabe? — Figurinha tem um barulho próprio. O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória. — A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira. Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos ne...

O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro

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 O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...