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O cego que coleciona histórias: O primeiro encontro

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Manhã de quarta-feira sossegada em Tupã. O cego estava sentado em sua poltrona ouvindo os sons da cidade quando um vento veio forte. Logo depois, a campainha tocou. Ele se levantou para atender e, ao perguntar quem era, ouviu apenas toc-toc-toc, madeira batendo no ferro do portão. Não havia passos se afastando. Nem respiração do outro lado. Só o vento mexendo nas folhas da varanda, como se tivesse pressa de ir embora depois da entrega feita. Abriu. — Quem está aí? Silêncio. A mão buscou o vazio até encontrar algo encostado na grade. Madeira. Alta. Fria. Passou os dedos com cuidado, como quem lê um rosto desconhecido. Sentiu marcas profundas, rachaduras, partes lisas de tanto uso. Aquilo parecia ter andado muito até chegar aqui, pensou o cego Não havia ninguém. Só o cajado. Levou-o para dentro mais por educação que curiosidade, como se recolhesse algo esquecido por um visitante distraído. Encostou-o na parede e o dia seguiu comum demais para carregar mistério: café morno, o rádio distan...

📖 Capítulo 12: O texto final ou um manifesto?

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado A Gatuna está desligada. Mas eu não. Percorri trevos, cruzamentos, trilhos antigos, cidades que me formaram antes de eu perceber que estavam me ensinando. Pompéia me deu identidade. Quintana me fez pensar o silêncio. Herculândia mostrou que o mapa nem sempre explica as divisões. Tupã me ensinou permanência. No começo da série, muitos acharam que era sobre uma moto. Alguns pensaram que era sobre cegueira. Mas sempre foi sobre vínculo. Quando perdi a visão, não perdi a estrada. Perdi a pressa. Foi ali que entendi o que já tinha lido e não vivido: o essencial não se oferece aos olhos. Oferece-se ao tempo. A cada capítulo, a estrada deixou de ser chão e virou complemento. O ronco da Gatuna deixou de ser barulho e virou memória vibrando no peito. A cidade deixou de ser cenário e ganhou vida. E com tudo isso, aprendi que domesticar não é dominar. É cuidar do que nasce entre dois. Entre um homem e sua máquina. Entre um pai e seu...

Capítulo 11: No fio da história

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🏍️😎🧑‍🦯 Série – O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pompéia, Quintana, Herculândia e Tupã Matas, café, Trilhos e divisões invisíveis Estou no trecho. A Gatuna avança pela SP-294. O asfalto vibra sob os pneus como se guardasse memória. Não enxergo as placas, mas reconheço o território pelo som: o vento muda, o eco se abre, o chão responde. A rodovia fala e eu escuto. Antes da estrada, houve trilho. Antes do trem, o café. Antes do café, mata fechada. E antes da mata cortada, passos indígenas que conheciam cada dobra desse chão. Essas cidades não nasceram isoladas. Elas se dividiram, como células de um mesmo corpo. Pompéia vem primeiro no pensamento. Não só como cidade, mas como estrutura. Chão central, organizador, administrativo. Foi chão-mãe. Dela partiram limites, decretos, desmembramentos e cidades inteiras. Quintana nasce desse movimento. Primeiro lavoura, depois distrito, depois cidade. Mudou de nome, de gestão, até firmar identidade própria. Filha do trilho e da re...

📖 Capítulo 10: Tupã à sombra da figueira

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado Entrei em Tupã pelo trevo principal como quem retorna ao que escolhi um dia. A Gatuna não pediu pressa. Apenas virou o guidão e me conduziu até a sombra da figueira. Eu sei: ali, o tempo costuma respeitar quem senta. Desliguei a moto. Comprei um copo de caldo de cana, gelado, doce na medida certa. Tupã tem dessas coisas: não complica o que pode ser simples. Fiquei ali, ouvindo a cidade passar sem me atravessar. Foi nesse contexto que desabafei com a Gatuna. Contei que decidi morar em Tupã sem nunca ter vindo antes. Uma escolha pensada, adulta, mas sem garantias. Disse que cheguei e fiquei, e que a cidade não me perguntou nada, apenas abriu espaço para que eu sustentasse minha própria decisão. Falei dos meus filhos, nascidos ali, enquanto a cidade seguia funcionando. Tupã não parou para celebrar a vida. E talvez por isso mesmo tenha me ensinado tanto sobre continuidade. Disse que foi ali que me realizei como professor. Sal...

Capítulo 9: Raiz não faz barulho

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pare, leia e reflita A Gatuna diminui antes de eu pedir. Quando isso acontece, sei que não é distração. É aviso. Algumas cidades não querem ser atravessadas,  querem ser sentidas. Herculândia- SP é assim. Ela não se apresenta. Ela espera. Aqui, o tempo não corre. Ele trabalha. O cheiro de terra recém mexida chega antes das vozes, antes das casas, antes das histórias contadas em palavras. Descubro que essa cidade aprendeu a sobreviver fazendo duas coisas ao mesmo tempo: colhendo rápido e esperando muito. O amendoim sustenta o agora. As mudas, cuidadas em chácaras, apostam num futuro que quem planta talvez nunca veja. A moto para perto de uma delas. Escuto água correndo em mangueiras finas, passos lentos, mãos que lidam com plantas pequenas demais para chamar atenção. Alguém comenta, quase como quem não percebe a grandeza do que diz, que dali saem árvores para outras cidades. Herculândia não cresce só para si. Ela es...

📖 CAPÍTULO 8: QUINTANA, O QUINTAL DO TEMPO

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O Cego e Sua Moto: Entre o Real e o Imaginado 💡 Há lugares que não pedem licença para entrar na gente.  Foi assim quando a Gatuna desacelerou ao entrar em Quintana. Pequena no tamanho, imensa no silêncio que carrega. Sinto o estalo do metal quente do motor esfriando, um som seco que marca a nossa chegada. Dizem que a cidade nasceu de um quintal,  uma pequena quinta perdida entre trilhos e vontades. Antes de ter nome, já tinha espera. Antes de ter igreja, já tinha fé. Antes de ter estação, já tinha gente sonhando com chegada. Eu não vejo Quintana com os olhos. Vejo com o que ficou no ar. Sinto o eco distante do trem que um dia prometeu futuro, o barulho manso da terra sendo mexida à mão, o sotaque misturado de quem veio de longe para fincar raiz. Há um cheiro de café passado sem pressa, de madeira antiga aquecida pelo sol, de conversa baixa atravessando a tarde. É o "real" do olfato encontrando o "imaginado" da minha mente. A moto para. O tempo t...

💡 Capítulo 7: Do nada, o tudo

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Só quem sente, percebe! Atraído pelos sons de Pompéia, resolvo continuar passando pelo trecho que a maioria dos moradores da cidade considera o mais perigoso da Via Expressa, a descida do Panelão e do Campão. A Gatuna me leva, e encontramos um ponto exato de latitude e longitude, uma coordenada perfeita onde ocorre uma fusão incrível, uma verdadeira zona de convergência sonora. Primeiro, os sons são tímidos, depois, logo se enchem, vibrantes: as vozes dos alunos das escolas Grupão - EMEF de Pompéia e do CENE - Escola Estadual Cultura e Liberdade. Ali, tudo junto e misturado. O real e o imaginado se fundem no som do futuro. Risadas, chamados, gritos... Um alvoroço de alegria. O burburinho vivo de estudantes aprendendo a ser gente. Eu sorrio. Aquele sorriso largo que a escuridão não consegue apagar. No ronco da Gatuna, me dou conta de que a cidade tem um grito e é um grito bonito. Não é de desespero, mas de vida, de...