O Cego que Coleciona Histórias: 2º Encontro
Quanto custa descobrir que a própria esperança também pode enganar a gente? Era meio de tarde quando o ferro do portão do Cego tremeu devagar. Não foi batida forte. Foi como quem chama sem querer fazer barulho demais. Na rua, uma moto passou levantando poeira seca. Ao longe, um vendedor de pamonha gritou seu pregão arrastado. Do lado de fora, alguém respirava fundo antes de falar. — Sou a Laura… moro ali na rua de baixo… quase em frente da venda do seu Anselmo. O Cego abriu o portão. Ela entrou sem pedir licença. O chinelo raspava no chão como quem ainda não decidiu se fica ou volta. Por alguns segundos só se ouviu o pano da bolsa sendo apertado. — O senhor já ouviu falar no golpe do bilhete premiado? O Cego disse: Já ouvi falar.... A mulher soltou um riso curto. Riso que parecia pedir desculpa. — Pois é… eu ouvi também… mas achei que comigo não ia acontecer. Um caminhão passou na avenida próxima. O cajado vibrou forte nas mãos do cego. Toc-Toc-Toc. Ela continuou: — O homem chorava… di...