Postagens

O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro

Imagem
 Você ganhou o mundo. E a si mesmo? A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde. O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. O Cego caminhou até um dos bancos da praça. Ali, alguém suspirou antes de falar. — Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida. A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo. O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores. — E encontrou o que ? Cléo soltou uma risada breve. — Encontrei tudo. O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta. — Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem. Enquanto falava, girava algo entre os dedos. O Cego ouviu o leve atrito das contas. — Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos. O terço continuava deslizando entre seus dedos. — Estranho... nunca...

O Cego que Coleciona Histórias: 14º Encontro

Imagem
 Há pessoas que não deixam um lugar de uma vez... Vão saindo aos poucos, até esquecerem o caminho de volta. Juca chegou sem anunciar a própria chegada. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. Havia cansaço nos passos. Não o do corpo, mas o de quem passou anos longe de si mesmo. O Cego percebeu antes da voz. Aquele homem carregava um silêncio antigo. Não o de quem não fala, mas o de quem repetiu tantas vezes a própria história por dentro que as palavras perderam a força de sair. Sentou-se. A cadeira rangeu. — Faz muito tempo — disse. — Eu nunca mais voltei. — Voltou onde? — perguntou o Cego. Juca respirou fundo. — Na minha cidade. Na terrinha onde nasci. — Fui embora achando que era provisório. Trabalho, estudo… essas promessas que fazem a gente acreditar que ainda vai dar tempo. Estalou os dedos. Um som seco. — Depois, um ano virou outro. E, quando percebi… não sabia mais voltar. O Cego ouviu o que existia atrás da frase: não era distância. Era desenraizamento. — E o que ficou lá? Ju...

O Cego que Coleciona Histórias: 13º Encontro

Imagem
 “Como seguir em frente quando não existe certeza sobre o caminho certo?” Nika entrou sem bater, como se já soubesse que aquele espaço não exigia explicações. O Cego percebeu a presença antes mesmo do som da porta terminar de se fechar. Havia nela uma hesitação que não era de passos, mas de destino. Sentou devagar, as mãos apertando a alça da mochila escolar como quem tenta segurar algo que já está escorregando há muito tempo. — Eu não sei o que fazer da minha vida, Disse, quase num sopro. O Cego inclinou a cabeça levemente, como se escutasse mais do que a frase. — Dezessete anos, Nika  continuou: e todo mundo parece saber. Medicina, direito, engenharia… e eu só sinto um vazio quando tento escolher. Lá fora, um ônibus passou rápido demais para aquela rua estreita. Dentro, o tempo parecia não ter pressa. — E se eu escolher errado? ela perguntou. — E se eu me prender numa vida que não é minha? O Cego respirou antes de responder, como quem procura palavras que não machuquem. — O ...

O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro

Imagem
O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo? O avô Antônio e as Figurinhas da Copa A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi. O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente. Plástico sendo ajeitado. Depois outro. Os passos adentraram o portão. — Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio. O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando. — Álbum? perguntou o Cego. Antônio riu. — Como você sabe? — Figurinha tem um barulho próprio. O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória. — A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira. Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos ne...

O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro

Imagem
 O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...

O Cego que coleciona histórias: 10º Encontro

Imagem
 O que revela o invisível quando nos deixamos escutar? O dom do ouvir Dizem que o silêncio é ausência. Para o Cego, nunca foi. É nele que as histórias respiram antes de nascer. Desde que o cajado cruzou seu portão, algo mudou. A casa segue a mesma, as paredes não se moveram, mas o ar… aprendeu outro ritmo. O cajado repousa encostado, como quem dorme de olhos abertos. Não chama atenção. Mas quando o cego o firma no chão, o mundo desacelera. As palavras perdem a pressa. E, por um instante raro, ninguém precisa fingir. Há dias em que a madeira pesa. Não nas mãos, mais fundo, como se carregasse aquilo que não foi dito direito. Em outros, aquece devagar, quase imperceptível, como se reconhecesse algo leve demais para virar palavra. O cego não pergunta muito. Aprendeu que nem toda verdade gosta de ser interrogada. Algumas só aparecem quando encontram espaço. Quem chega traz um nó. Quem sai, às vezes, ainda o carrega, mas já sabe onde ele começa. O cego não guarda as histórias. Nunca guar...

O Cego que coleciona histórias: 9º Encontro

Imagem
 Vale a pena se perder… pra não perder tudo? O sol da manhã já tinha tomado a calçada do edifício da redação quando ela chegou. Passos rápidos. Parou. O som do papel sendo amassado na mão dela era seco, nervoso. Parecia o som de uma pele que descola. O vento carregava cheiro de café velho com papel esquecido. Ao fundo, um locutor ainda falava, como se o mundo não soubesse parar.  Foi então que ela percebeu o Cego. Ele estava imóvel, mas o som das batidas rítmicas e lentas de seu cajado no concreto pareciam contar os segundos que ela não tinha. Toc-toc-toc. — Me pediram pra não publicar… Camila, jornalista, tinha nas mãos um esquema sujo. Provas suficientes. Nomes influentes da cidade. Mas o dono do portal mandou segurar. Se publicasse, perdia o emprego. Se obedecesse, perdia a si mesma. — Eu lutei tanto pra chegar até aqui… e agora parece que tenho que escolher entre tudo isso e quem eu sou. O cego parou a batida do cajado. O silêncio que se seguiu pesou mais que o sol. — O pa...