O Cego que Coleciona Histórias: 4º Encontro
Que tipo de noite faz alguém parar no portão de um estranho? A varanda cheirava a chuvas de Março. O balanço rangia devagar, marcando o tempo com o ventilador de teto que girava preguiçoso. Passos na calçada pararam no portão da casa do Cego. — Sou a Tiana. A que mudou pra casa da frente. A voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante de um carro subindo a ladeira. — Senta aqui. O tecido da cadeira esticou quando ela se acomodou. Um isqueiro clicou. Fumaça quente passou perto do rosto dele. — Eu vi o senhor aqui ontem. Sozinho. Pensei que talvez… o senhor entendesse de noites que pesam. Silêncio. Só o balanço e o cigarro crepitando. — Noite pesada tem cheiro diferente? Ela riu curto, seco. — Tem. Cheiro de coisa que a gente jurou que deixou pra trás. E o corpo lembra antes. Ele deixou o balanço marcar mais dois compassos. — Faz quanto tempo? — Três anos, sete meses… e uns dias. — A voz falhou no final. — Mas hoje o entregador de gás tinha o mesmo cheiro que os antigos “amigos” ...