O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro
O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...