O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro
Você ganhou o mundo. E a si mesmo? A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde. O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. O Cego caminhou até um dos bancos da praça. Ali, alguém suspirou antes de falar. — Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida. A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo. O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores. — E encontrou o que ? Cléo soltou uma risada breve. — Encontrei tudo. O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta. — Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem. Enquanto falava, girava algo entre os dedos. O Cego ouviu o leve atrito das contas. — Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos. O terço continuava deslizando entre seus dedos. — Estranho... nunca...