Um caminho para a oração

 Será que toda oração muda primeiro quem ora?


Todas as noites, minhas orações seguem o mesmo caminho: agradecem, pedem perdão, procuram direção, alcançam quem sofre e repousam sobre minha família. Nunca sei como Deus responderá. Mas todas as manhãs acordo um pouco mais disposto a escutá-Lo. 🕊️😎🧑‍🦯


Como costuma ser seus encontros com Deus?



A diferença entre o que a gente percebe e o que a gente sente

O sentir, os sentidos e os sentimentos.


Outro dia fiquei pensando numa palavra que usamos o tempo todo: sentir.


A gente sente o calor do chá na xícara. Sente o perfume da terra quando começa a chover. Sente a aspereza de uma parede antiga. Sente a música preencher um cômodo vazio.


Mas também sente saudade.

    

Sente medo.


Sente esperança.


Curioso como a mesma palavra atravessa dois mundos. Um chega pelos sentidos. O outro nasce por dentro.


Os sentidos avisam que alguma coisa está acontecendo ao nosso redor. Os sentimentos contam o que essa mesma coisa fez conosco.


Duas pessoas podem caminhar pela mesma rua. As duas escutam o mesmo sino, respiram o mesmo ar e passam pela mesma árvore. No entanto, uma volta para casa carregando alegria. A outra, uma tristeza que nem sabe explicar.


O mundo era o mesmo.


Quem mudou foi o lugar onde cada um o recebeu.


Talvez seja por isso que conhecer alguém nunca seja apenas descobrir o que essa pessoa vê, escuta ou toca.


É descobrir como ela sente.


Porque os sentidos nos apresentam a realidade.


Mas são os sentimentos que lhe dão significado.


E, no fim das contas, não somos lembrados pelas coisas que percebemos.


Somos lembrados pelo modo como fizemos os outros se sentirem.



 

Tem feira na Quinta

Toda quinta-feira, quando o tempo já ultrapassou mais da metade da semana, o centro da cidade de Tupã-SP, muda de voz. As ruas deixam de ser apenas caminho e se transformam em destino. Basta alguém     comentar: "Tem feira na quinta." E, de repente, todos entendem que não se trata apenas de compras.


Cada barraca guarda um mundo. O vendedor de temperos mede o colorau, o açafrão e a pimenta com mãos que parecem conhecer receitas capazes de curar mais saudade do que fome. Na banca das frutas, o feirante oferece uma fatia de melancia enquanto conta, sem perceber, histórias de safras, secas e colheitas. Mais adiante, quem frita pastéis conhece pelo nome gente que viu crescer, casar e agora empurra o carrinho dos netos entre as barracas.

        

A feira não vende apenas mercadorias. Ela distribui reencontros, notícias, risadas e o raro conforto de saber que algumas coisas continuam no mesmo lugar, mesmo quando a vida insiste em mudar.


Talvez seja por isso que a feira nunca venda apenas o que cabe nas sacolas. Entre uma pamonha, uma laranja e um aperto de mão, ela entrega pedaços da vida que a gente nem sabia que ainda guardava.

        



 

Quando a gente começa a enxergar defeitos em quem ensinou a gente a viver, é desrespeito?

O Cego que Coleciona Histórias: 18º Encontro

A quermesse de São Pedro seguia animada. O sino da igreja acabara de tocar, crianças corriam atrás de balões e o locutor do bingo tentava vencer o barulho das conversas. O cheiro de frango assado e quentão passeava entre as mesas espalhadas pela praça.

O Cego estava sentado perto da barraca dos doces quando uma cadeira raspou devagar.

— Sou o Tadeu. Meu pai é dono da loja mais antiga da avenida. Posso me sentar um pouco?

O Cego fez sinal de sim com a cabeça. 

Ele demorou alguns segundos antes de começar.

— Estou bravo com o pai.

A indignação vinha antes das palavras.

— Vive dizendo que ama o Brasil. Para a Copa encheu a loja de bandeiras, colocou música patriótica... 
— Mas não dispensou os funcionários durante os jogos da Seleção.

Ao longe, alguém comemorou um prêmio do bingo. Palmas cobriram o silêncio por alguns instantes.

— Sabe o pior? Eu cresci admirando meu pai. Mas estou descobrindo um pai que eu nunca imaginei.

Uma voluntária deixou sobre a mesa um prato de amendoim torrado.

Tadeu pegou alguns grãos e esfregou entre as mãos para tirar a pele.

— Quando eu era pequeno, ele fechava a loja mais cedo pra me levar ao campo da cidade. Dizia que futebol era desculpa pra juntar gente.

A sanfona voltou a tocar.

O Cego passou os dedos pela borda do prato.

— Às vezes a lembrança continua fazendo uma pergunta que o presente ainda não respondeu.

Ele respirou fundo.

O locutor anunciou outra rodada. As pessoas arrastaram cadeiras pela praça.

Tadeu levantou devagar. Apertou o ombro do Cego e disse baixinho:

— Talvez o que esteja doendo não seja o homem que ele é... mas a falta daquele pai que eu ainda escuto quando a torcida canta o hino.

A imagem retrata uma quermesse de fim de tarde em uma pequena cidade do interior, iluminada pela luz quente do pôr do sol.   À esquerda está o protagonista da série: um homem cego, de aparência madura e postura serena. Usa boina marrom, óculos escuros, camiseta azul, calça clara de algodão cru e sandálias de couro. Sentado em uma cadeira de madeira, apoia uma das mãos sobre o cajado e a outra junto ao rosto, demonstrando atenção enquanto escuta.    À direita está Tadeu, um homem jovem de camiseta verde-oliva. Inclinado para a frente, conversa com gestos expressivos e semblante de inquietação.    Entre os dois há uma mesa rústica com toalha xadrez, duas canecas esmaltadas, um prato de amendoins torrados e uma pequena lanterna acesa.    Ao fundo, a praça da igreja recebe a quermesse de São Pedro. Bandeirinhas coloridas, mesas ocupadas pelos moradores, luzes decorativas e a igreja ao centro compõem o cenário. À direita aparece a barraca do bingo com seu letreiro iluminado.    À esquerda da cena, uma árvore antiga abriga dois quadros decorativos. Um traz a frase: "Cada história que ouvimos nos muda um pouco por dentro." O outro anuncia: "Quermesse de São Pedro — Fé, Partilha, Comunidade, Amor."    Flores discretas no canto inferior esquerdo completam a composição. O enquadramento horizontal e a luz suave reforçam o clima acolhedor e intimista da conversa em meio à festa.



A dona Zizi também te benzeu?

O Cego que Coleciona Histórias — 17º Encontro


A paineira da praça da fonte continuava espalhando sombra sobre o banco de madeira gasto pelo tempo. O sino da igreja tinha acabado de bater três horas.


O Cego estava sentado ali quando ouviu passos lentos se aproximando, arrastando as chinelas.


— Sou a Zilma, disse uma voz envelhecida... O povo me conhecia como a dona Zizi benzedeira.


Ela se sentou ao lado dele. O banco respondeu com um rangido comprido.


Por alguns instantes, ficaram ouvindo o vento mexer nas folhas.


— Ainda benze? Perguntou o Cego.


— Ainda.


A resposta veio rápida.


Depois demorou.


— Mas quase ninguém aparece mais.


Zizi mexeu em alguma coisa dentro da bolsa.


— Carrego isso comigo há mais de quarenta anos.


Ela colocou um pequeno caderno nas mãos do Cego.


As páginas estavam gastas nas bordas.


— O que tem aqui? perguntou ele.


— Nome de gente.


Ela deu uma pausa.


— Criança com susto. Olho gordo. Bico de papagaio. Quebranto. espinhela caída. Também fiz muitos partos.


O vento virou algumas páginas sozinho.


— Curou muita gente?


Dona Zizi soltou uma risada curta.


— Metade da cidade diz que sim.


O vendedor de algodão doce passou assobiando.


— E a outra metade?


— Nem lembra que eu existo.


O silêncio ficou sentado entre os dois.


Depois ela falou mais baixo.


— Ontem passei em frente à Santa Casa. Um médico que nasceu pelas minhas mãos, nem me reconheceu.


O Cego passou os dedos pela capa áspera do caderno.


— E isso doeu?


Ela demorou para responder.


— Não por ele esquecer.


Nova pausa.


— Foi perceber que eu ainda queria ser lembrada.


Uma folha seca caiu da paineira e pousou perto dos seus pés.


Ninguém disse nada.


Então Dona Zizi guardou o caderno na bolsa, levantou devagar e seguiu seu caminho.


O Cego permaneceu ouvindo seus passos até desaparecerem na distância.

Porque às vezes a dor não está no esquecimento dos outros, mas na descoberta de que ainda desejamos ser lembrados.


Descrição da Imagem:  A cena acontece em uma praça tranquila do interior, iluminada pela luz suave do fim da tarde.    Sob uma grande árvore, o Cego está sentado em um banco de madeira gasto pelo tempo. Usa boina marrom, óculos escuros, camiseta azul, calça clara de algodão cru e sandálias de couro. Em uma das mãos segura seu cajado de madeira. Sua postura transmite calma e atenção.    Ao seu lado está Dona Zizi, uma senhora de cabelos grisalhos presos para trás e vestido simples. Em suas mãos, ela entrega ao Cego um pequeno caderno antigo, de capa desgastada pelo uso.    Ao fundo aparecem a igreja da cidade e a fonte da praça, reforçando o ambiente típico do interior paulista. Mais adiante, um vendedor de algodão-doce atravessa a cena, remetendo discretamente à narrativa.    O banco envelhecido, o chão de pedras e a luz dourada completam uma atmosfera de memória e silêncio.    A imagem retrata um encontro simples entre duas pessoas que compartilham lembranças, histórias e a necessidade humana de ser lembrado.


Já brigou por um posicionamento e perdeu alguém?

O Cego que Coleciona Histórias — 16º Encontro  

O bar do Santana estava naquela hora da tarde em que as pessoas passavam por lá para saberem os comentários da cidade. O cheiro de torresmo frito chegava antes de qualquer voz.


Foi o Santana que chamou o Cego...


— Senta aqui, Cego. Tem um sujeito precisando mais de conversa do que de cerveja.


Ouviu a cadeira arrastar.


— Sou o Gilberto, disse a voz ao lado do Cego. 


Apertou a mão dele.


Ela chegou firme. Mas voltou devagar.


— Briguei com meu genro no grupo da família.


Fez barulho ao pegar o copo.


Colocou de volta na mesa sem beber.


— Política.


A palavra caiu pesada entre eles.


Do outro lado do balcão, alguém pediu uma dose.


Gilberto continuou:


— Falei coisa que não devia. Saí do grupo. Ele também.


O barulho dos dedos dele batendo no tampo da mesa parecia procurar alguma coisa.


— E agora?


— Agora nada.


Ficaram em silêncio.


Então o Cego ouviu o som de folhas de jornal.


— Tô com isso levando pra cá e pra lá faz três dias.


— Descobri que o político que eu defendia mentiu.


Não levantou a voz.


Nem parecia bravo.


Parecia desiludido.


Lá fora, uma motocicleta atravessou a rua deixando um ronco curto no ar.


— Sabe o que mais dói? — perguntou.


O Cego não respondeu.


— Não é a mentira do político.


Bateu o copo com força na mesa.


— É lembrar das coisas que eu falei para o pai das minhas netas. Um cara que eu amo.


Alguém derrubou uma tampa metálica perto da cozinha.


— Ainda não sei como voltar naquele grupo.


O Cego fez cara de surpresa e depois de dar um gole, disse:

— Às vezes, a gente demora para descobrir quem mentiu.


Gilberto respirou fundo.


Esperou.


Mas o Cego não disse mais nada. Apenas se despediu dizendo ter um compromisso.


Quando saiu, ouviu o jornal sendo folheado outra vez por Gilberto.

Como se, antes de procurar a família, ele precisasse conversar mais um pouco com a própria verdade.

Descrição da imagem: Estamos dentro de um bar simples do interior paulista, provavelmente no fim da tarde. A luz dourada do sol entra pela porta aberta e pelas janelas, criando uma atmosfera quente, acolhedora e nostálgica.      À esquerda está o Cego, homem forte e alto, usando boina marrom, óculos escuros, camiseta azul de cor sólida, calça clara de algodão e sandálias de couro. O cajado de madeira repousa entre suas pernas, sustentado por sua mão. Sua postura transmite calma absoluta. Sentado, levemente inclinado para frente, parece alguém que escuta mais do que fala. O rosto sereno, sem tensão, demonstra atenção plena ao que ouve.      À direita está Gilberto, diante do Cego, vestindo camisa avermelhada. Os braços e mãos se movem em gestos de explicação, como quem tenta dar sentido a uma situação difícil. Sua expressão revela preocupação e desabafo.      Sobre a mesa repousam um copo de bebida e um jornal aberto. O jornal é central na composição, pois remete ao texto em que Gilberto confessa carregar aquele exemplar há três dias, depois de descobrir a mentira do político que defendia.      O ambiente do bar é rico em detalhes: mesas e cadeiras de madeira desgastadas, placas antigas nas paredes, garrafas atrás do balcão. Tudo transmite simplicidade e humanidade, típicas de uma cidade pequena.      Ao fundo, pela porta aberta, vê-se a rua: árvores grandes, calçamento antigo, motocicletas estacionadas e, ao longe, uma igreja branca. Esse detalhe acrescenta profundidade e reforça a ideia de reflexão presente no episódio.      O contraste entre os dois homens é o que mais chama atenção. Gilberto inquieto, carregando um conflito; o Cego imóvel, firme e silencioso. Visualmente, a cena traduz o que o texto sugere: não é uma conversa sobre política, mas sobre arrependimento.      A cena transmite a sensação de que Gilberto está tentando encontrar o caminho de volta para alguém que ama, enquanto o Cego oferece presença e escuta amiga.



Você ganhou o mundo. E a si mesmo?

O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro  

A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde.


O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho.


O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc.


O Cego caminhou até um dos bancos da praça.


Ali, alguém suspirou antes de falar.


— Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida.


A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo.


O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores.


— E encontrou o que ?


Cléo soltou uma risada breve.


— Encontrei tudo.


O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta.


— Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem.


Enquanto falava, girava algo entre os dedos.


O Cego ouviu o leve atrito das contas.


— Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos.


O terço continuava deslizando entre seus dedos.


— Estranho... nunca tenho tempo para rezar. Mas sempre levei ele comigo.


— Talvez algumas coisas esperem mais do que cobrem, disse o Cego.


Cléo demorou para responder.


— Sabe o que mais me assusta? Não foi perder dinheiro. Nem oportunidades. Foi perceber que, enquanto eu ganhava tantas coisas, outras foram ficando para trás.


— E você sabe o que ficou para trás?


Ela passou o terço para outra  mão. Mas não respondeu.


O sino da igreja voltou a tocar.


Cléo permaneceu imóvel por alguns segundos, como quem tenta reconhecer algo.


— Obrigada por me ouvir.


— Eu também gosto de encontrar quem ainda está procurando, falou o Cego.


Cléo deu alguns passos.


Então parou.


O som das contas voltou a correr entre seus dedos.


E, antes de seguir caminho, ficou um instante escutando os sinos.


Às vezes, a gente passa a vida inteira correndo atrás do que perdeu.


Até descobrir que era a própria voz que estava ficando para trás.


Descrição da imagem:  A imagem mostra uma praça de cidade do interior em uma tarde iluminada pelo sol dourado do fim do dia. A luz é quente e suave, criando uma atmosfera de tranquilidade e nostalgia.    No centro da cena há um banco de madeira escura. Sentado à esquerda está o Cego da série. Ele aparenta cerca de 50 anos, tem porte forte e postura serena. Usa uma boina marrom, óculos escuros, camiseta azul de manga curta, calça clara de algodão cru e sandálias de couro marrom. Em uma das mãos segura um cajado de madeira comprido, marcado pelo uso, apoiado verticalmente no chão ao lado do banco.    Seu rosto está voltado para uma mulher sentada ao seu lado. Ela está ligeiramente inclinada em sua direção, como quem conversa sobre algo importante. Usa calça jeans e uma blusa verde-oliva. Nas mãos, segura um terço, cujas contas brilham discretamente sob a luz do sol. É possível perceber que ela parece reflexiva, talvez compartilhando uma preocupação ou uma lembrança.    Ao fundo surge uma igreja de arquitetura simples, típica de cidades do interior paulista. Sua torre se destaca contra o céu claro, e no topo há uma cruz. A igreja está banhada pela mesma luz dourada que ilumina toda a praça.    Espalhadas pela praça, algumas crianças brincam correndo atrás de uma bola. À esquerda da imagem aparece um carrinho de sorvetes, reforçando a sensação de uma tarde comum e tranquila. Grandes árvores cercam o local, formando sombras suaves sobre o calçamento.    O que mais chama atenção não é exatamente a paisagem, mas o clima emocional da cena. Parece um instante de escuta profunda. O Cego transmite acolhimento silencioso, enquanto a mulher parece estar dividindo algo que guardou por muito tempo. Há movimento ao redor — crianças, praça, cidade — mas entre os dois existe uma espécie de silêncio tranquilo, como se o mundo tivesse diminuído o ritmo por alguns minutos.




Há pessoas que não deixam um lugar de uma vez... Vão saindo aos poucos, até esquecerem o caminho de volta.

O Cego que Coleciona Histórias: 14º Encontro


Juca chegou sem anunciar a própria chegada.


O cajado tocou o chão.

Toc. Toc. Toc.


Havia cansaço nos passos. Não o do corpo, mas o de quem passou anos longe de si mesmo.


O Cego percebeu antes da voz.

Aquele homem carregava um silêncio antigo. Não o de quem não fala, mas o de quem repetiu tantas vezes a própria história por dentro que as palavras perderam a força de sair.


Sentou-se.

A cadeira rangeu.


— Faz muito tempo — disse.

— Eu nunca mais voltei.


— Voltou onde? — perguntou o Cego.


Juca respirou fundo.


— Na minha cidade. Na terrinha onde nasci.

— Fui embora achando que era provisório. Trabalho, estudo… essas promessas que fazem a gente acreditar que ainda vai dar tempo.


Estalou os dedos. Um som seco.


— Depois, um ano virou outro. E, quando percebi… não sabia mais voltar.


O Cego ouviu o que existia atrás da frase: não era distância. Era desenraizamento.


— E o que ficou lá?


Juca ficou pensativo.


— Minha identidade.


A resposta veio limpa demais.

E por isso doeu mais.


O silêncio parecia cheio de poeira e vozes antigas.


— Eu parei de saber voltar, completou Juca.


Agora a verdade existia inteira.


Não era a cidade que tinha desaparecido.


Era o caminho.


— Ainda sonho com ela, falou baixinho.

— A casa em que morei…

— A escola…

— A praça da igreja…


Fez uma pausa.


— No sonho, tudo continua lá. Só eu que não.


— E quando acorda?


Juca se remexeu na cadeira.


— Eu continuo indo embora.


Ficaram em silêncio.


Depois, já na porta, ele perguntou:


— O senhor acha que ainda dá tempo?


O Cego pensou antes de responder.


— Tem coisas que não voltam.

— Mas existem coisas que finalmente param de fugir.


Juca saiu devagar.


E os passos dele pelo corredor não pareciam os de alguém indo embora.


Pareciam os de alguém que, pela primeira vez em muitos anos, tinha parado de partir.


Descrição da imagem:    A tarde parecia ter escolhido aquele lugar para descansar.    Na varanda simples de uma antiga casa do interior, o homem de boina marrom permanecia sentado como quem conhece o valor dos silêncios. Os óculos escuros escondiam os olhos, mas não a serenidade. Em uma das mãos, o cajado gasto pelo tempo repousava firme, como um velho companheiro de estrada.    À sua frente, outro homem ocupava a cadeira sem ocupar o próprio coração por inteiro. Havia algo em sua postura que lembrava quem passou anos caminhando para longe de alguma coisa que amava.    A luz dourada do fim da tarde atravessava a rua de pedras e desenhava sombras compridas entre as árvores. Ao longe, a igreja observava a cena em silêncio, como guardiã das memórias que insistem em permanecer onde nasceram.    Nas paredes, objetos simples contavam histórias sem pressa. Sobre uma placa, a frase parecia resumir tudo: escutar também é acolher.    E talvez fosse exatamente isso que acontecia ali.    Não era uma conversa comum. Era um reencontro invisível. Não entre duas pessoas, mas entre um homem e aquilo que ele havia deixado para trás.    Enquanto a cidade seguia respirando devagar, algo parecia voltar para casa.    Não pelos caminhos da estrada.    Mas pelos caminhos da alma.



Como seguir em frente quando não existe certeza sobre o caminho certo?

O Cego que Coleciona Histórias: 13º Encontro 

Nika entrou sem bater, como se já soubesse que aquele espaço não exigia explicações. O Cego percebeu a presença antes mesmo do som da porta terminar de se fechar. Havia nela uma hesitação que não era de passos, mas de destino.


Sentou devagar, as mãos apertando a alça da mochila escolar como quem tenta segurar algo que já está escorregando há muito tempo.


— Eu não sei o que fazer da minha vida, Disse, quase num sopro.


O Cego inclinou a cabeça levemente, como se escutasse mais do que a frase.


— Dezessete anos, Nika  continuou: e todo mundo parece saber. Medicina, direito, engenharia… e eu só sinto um vazio quando tento escolher.


Lá fora, um ônibus passou rápido demais para aquela rua estreita. Dentro, o tempo parecia não ter pressa.


— E se eu escolher errado? ela perguntou. — E se eu me prender numa vida que não é minha?


O Cego respirou antes de responder, como quem procura palavras que não machuquem.


— O erro que você teme… talvez não seja escolher errado. Talvez seja acreditar que existe uma escolha perfeita.


A garota suspirou profundo.


— Mas eu queria ter certeza.


— Certeza é uma forma de parar o mundo para não ter que caminhar com ele.


Ela sorriu sem humor, um gesto curto, quase quebrado.


— Eu só queria alguém que dissesse o que fazer.


— E se ninguém disser, ele respondeu — talvez isso não seja abandono. Talvez seja caminho.


O ventilador no canto insistia em girar, como se também pensasse devagar.


Nika ficou em silêncio por um longo tempo. Quando falou, a voz já não vinha tão apertada.


— E se eu falhar?


— Você já está vivendo. O resto é só direção, não sentença.


Ela se levantou sem pressa. Não havia resposta pronta no rosto dela, mas havia algo mais leve entre os ombros.


Antes de sair, Nika ouviu o Cego dizer: 

"ninguém escolhe sem medo, só aprende a caminhar com ele."



Descrição da imagem:  A imagem mostra um fim de tarde silencioso em uma pequena cidade do interior paulista. A luz dourada entra pela porta aberta e atravessa a sala como se o tempo tivesse desacelerado ali dentro. O ambiente é simples, acolhedor e carregado de memória: móveis de madeira escura, livros antigos, paredes gastas pelo tempo e um ventilador antigo preso à parede reforçam a sensação de cotidiano vivido.    No centro da cena está o Cego. Ele aparece sentado com postura firme e tranquila, segurando o cajado de madeira marcado pelo uso. Usa boina marrom, óculos escuros, camiseta azul de tom sóbrio, calça clara de algodão cru e sandálias de couro gastas. O rosto transmite serenidade e escuta profunda, como alguém acostumado a acolher dores sem interrompê-las.    À sua frente está a jovem do encontro. Ela aparece sentada de costas parcialmente para o observador, com mochila escolar nos ombros, corpo inclinado levemente para frente e expressão corporal carregada de dúvida e cansaço emocional. A postura dela transmite exatamente a hesitação descrita no texto — alguém que chegou procurando respostas, mas ainda sem saber formular totalmente suas perguntas.    Do lado de fora da porta aberta, vê-se a rua estreita da cidade e um ônibus passando rapidamente, criando um contraste simbólico muito bonito: o mundo correndo lá fora enquanto, dentro daquela sala, tudo parece respirar devagar.    Na parede, pequenos quadros com palavras como “Escuta”, “Memória”, “Silêncio” e “Humanidade” ajudam a reforçar a identidade poética da série sem roubar a naturalidade da cena.    O clima emocional da imagem é de acolhimento diante da incerteza.  Não existe dramaticidade exagerada. O que a imagem transmite é algo mais humano e íntimo: a sensação de que, às vezes, seguir em frente começa apenas quando alguém finalmente encontra um lugar onde pode falar sem medo.


O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo?

O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro 


O avô Antônio e as Figurinhas da Copa


A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi.


O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente.


Plástico sendo ajeitado.


Depois outro.


Os passos adentraram o portão.


— Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio.


O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando.


— Álbum? perguntou o Cego.


Antônio riu.

— Como você sabe?

— Figurinha tem um barulho próprio.


O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória.


— A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira.


Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos netos.


— Eles crescem rápido demais. A figurinha não.


Cada plástico levantado fazia um ruído fino. Antônio contou que anotava atrás das páginas onde conseguiu as raras.


“Troca na praça.”

“Ganhei do neto mais novo.”


O cego escutava em silêncio. As figurinhas eram uma maneira de segurar o tempo.


— Tem jogador que eu nem lembro mais, falou Antônio.

— Mas lembro quem tava comigo quando colei.


Lá fora, uma moto passou longe. Dentro da casa, o álbum continuava aberto sobre a mesa.


O Cego imaginou dedos amarelados de cola ajeitando cada figurinha. Talvez algumas pessoas organizassem assim seus álbuns...


Depois de um tempo, Antônio fechou o álbum.


— Quando eu morrer, isso fica pros meninos. Talvez nem liguem. Mas acho que vão lembrar que eu sentei no chão com eles.


E os dois ficaram ali, em silêncio, escutando uma casa onde as memórias ainda tinham lugar pra sentar.


Descrição da imagem:   A mesa de madeira antiga possui marcas de uso, uma toalha rendada pequena e utensílios metálicos envelhecidos, como chaleira e caneca, reforçando o clima doméstico e afetivo.    Ao fundo, a cozinha escura e quente guarda detalhes sutis: um fogão antigo, potes simples, sombras suaves e um calendário da Copa de 1994 pendurado na parede, funcionando como elo visual entre memória e tempo.    Pela porta aberta entra a luz dourada da manhã. Lá fora, vê-se uma rua tranquila de cidade pequena, árvores antigas e uma igreja ao fundo. Um pássaro cruza o céu claro, sugerindo o bem-te-vi mencionado no texto.    A composição inteira transmite silêncio, escuta e herança afetiva. Não é uma cena sobre futebol. É uma cena sobre aquilo que permanece quando quase tudo passa: os momentos compartilhados.





Um caminho para a oração

 Será que toda oração muda primeiro quem ora? Todas as noites, minhas orações seguem o mesmo caminho: agradecem, pedem perdão, procuram dire...