O Cego que Coleciona Histórias: 3º Encontro
Quando foi que a mentira começou a pesar mais que a própria vida? O fim da tarde pousava devagar sobre as casas da rua. O radinho de pilha tocava sertanejo em cima da mesa. De vez em quando uma moto passava levantando poeira fina do asfalto gasto. Na varanda, o Cego estava sentado na cadeira de madeira. O cajado atravessado entre as mãos. O portão rangiu. Passos demorados subiram os três degraus da varanda. O homem limpou a garganta antes de falar. — Sou o Divino… seu vizinho da outra esquina. Acho que o senhor já deve ter ouvido falar de mim por aí. O Cego inclinou levemente a cabeça. — Pode chegar. A voz do homem tinha aquele esforço de quem está acostumado a falar alto… mas agora parecia menor. Um molho de chaves girava nervoso dentro da mão dele. — O povo diz que eu conto vantagem demais. O vento mexeu nas folhas da árvore defronte da casa. Divino soltou um riso curto. — Eu dizia que tinha negócio em Marília… caminhão rodando… dinheiro entrando. O molho de chaves parou de girar. Si...