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O Cego que Coleciona Histórias: 4º Encontro

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Que tipo de noite faz alguém parar no portão de um estranho? A varanda cheirava a chuvas de Março. O balanço rangia devagar, marcando o tempo com o ventilador de teto que girava preguiçoso. Passos na calçada pararam no portão da casa do Cego. — Sou a Tiana. A que mudou pra casa da frente. A voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante de um carro subindo a ladeira. — Senta aqui. O tecido da cadeira esticou quando ela se acomodou. Um isqueiro clicou. Fumaça quente passou perto do rosto dele. — Eu vi o senhor aqui ontem. Sozinho. Pensei que talvez… o senhor entendesse de noites que pesam. Silêncio. Só o balanço e o cigarro crepitando. — Noite pesada tem cheiro diferente? Ela riu curto, seco. — Tem. Cheiro de coisa que a gente jurou que deixou pra trás. E o corpo lembra antes. Ele deixou o balanço marcar mais dois compassos. — Faz quanto tempo? — Três anos, sete meses… e uns dias. — A voz falhou no final. — Mas hoje o entregador de gás tinha o mesmo cheiro que os antigos “amigos” ...

O Cego que Coleciona Histórias: 3º Encontro

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Quando foi que a mentira começou a pesar mais que a própria vida? O fim da tarde pousava devagar sobre as casas da rua. O radinho de pilha tocava sertanejo em cima da mesa. De vez em quando uma moto passava levantando poeira fina do asfalto gasto. Na varanda, o Cego estava sentado na cadeira de madeira. O cajado atravessado entre as mãos. O portão rangiu. Passos demorados subiram os três degraus da varanda. O homem limpou a garganta antes de falar. — Sou o Divino… seu vizinho da outra esquina. Acho que o senhor já deve ter ouvido falar de mim por aí. O Cego inclinou levemente a cabeça. — Pode chegar. A voz do homem tinha aquele esforço de quem está acostumado a falar alto… mas agora parecia menor. Um molho de chaves girava nervoso dentro da mão dele. — O povo diz que eu conto vantagem demais. O vento mexeu nas folhas da árvore defronte da casa. Divino soltou um riso curto. — Eu dizia que tinha negócio em Marília… caminhão rodando… dinheiro entrando. O molho de chaves parou de girar. Si...

O Cego que Coleciona Histórias: 2º Encontro

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Quanto custa descobrir que a própria esperança também pode enganar a gente? Era meio de tarde quando o ferro do portão do Cego tremeu devagar. Não foi batida forte. Foi como quem chama sem querer fazer barulho demais. Na rua, uma moto passou levantando poeira seca. Ao longe, um vendedor de pamonha gritou seu pregão arrastado. Do lado de fora, alguém respirava fundo antes de falar. — Sou a Laura… moro ali na rua de baixo… quase em frente da venda do seu Anselmo. O Cego abriu o portão. Ela entrou sem pedir licença. O chinelo raspava no chão como quem ainda não decidiu se fica ou volta. Por alguns segundos só se ouviu o pano da bolsa sendo apertado. — O senhor já ouviu falar no golpe do bilhete premiado? O Cego disse: Já ouvi falar.... A mulher soltou um riso curto. Riso que parecia pedir desculpa. — Pois é… eu ouvi também… mas achei que comigo não ia acontecer. Um caminhão passou na avenida próxima. O cajado vibrou forte nas mãos do cego. Toc-Toc-Toc. Ela continuou: — O homem chorava… di...

O cego que coleciona histórias: O primeiro encontro

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Manhã de quarta-feira sossegada em Tupã. O cego estava sentado em sua poltrona ouvindo os sons da cidade quando um vento veio forte. Logo depois, a campainha tocou. Ele se levantou para atender e, ao perguntar quem era, ouviu apenas toc-toc-toc, madeira batendo no ferro do portão. Não havia passos se afastando. Nem respiração do outro lado. Só o vento mexendo nas folhas da varanda, como se tivesse pressa de ir embora depois da entrega feita. Abriu. — Quem está aí? Silêncio. A mão buscou o vazio até encontrar algo encostado na grade. Madeira. Alta. Fria. Passou os dedos com cuidado, como quem lê um rosto desconhecido. Sentiu marcas profundas, rachaduras, partes lisas de tanto uso. Aquilo parecia ter andado muito até chegar aqui, pensou o cego Não havia ninguém. Só o cajado. Levou-o para dentro mais por educação que curiosidade, como se recolhesse algo esquecido por um visitante distraído. Encostou-o na parede e o dia seguiu comum demais para carregar mistério: café morno, o rádio distan...

📖 Capítulo 12: O texto final ou um manifesto?

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado A Gatuna está desligada. Mas eu não. Percorri trevos, cruzamentos, trilhos antigos, cidades que me formaram antes de eu perceber que estavam me ensinando. Pompéia me deu identidade. Quintana me fez pensar o silêncio. Herculândia mostrou que o mapa nem sempre explica as divisões. Tupã me ensinou permanência. No começo da série, muitos acharam que era sobre uma moto. Alguns pensaram que era sobre cegueira. Mas sempre foi sobre vínculo. Quando perdi a visão, não perdi a estrada. Perdi a pressa. Foi ali que entendi o que já tinha lido e não vivido: o essencial não se oferece aos olhos. Oferece-se ao tempo. A cada capítulo, a estrada deixou de ser chão e virou complemento. O ronco da Gatuna deixou de ser barulho e virou memória vibrando no peito. A cidade deixou de ser cenário e ganhou vida. E com tudo isso, aprendi que domesticar não é dominar. É cuidar do que nasce entre dois. Entre um homem e sua máquina. Entre um pai e seu...

Capítulo 11: No fio da história

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🏍️😎🧑‍🦯 Série – O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pompéia, Quintana, Herculândia e Tupã Matas, café, Trilhos e divisões invisíveis Estou no trecho. A Gatuna avança pela SP-294. O asfalto vibra sob os pneus como se guardasse memória. Não enxergo as placas, mas reconheço o território pelo som: o vento muda, o eco se abre, o chão responde. A rodovia fala e eu escuto. Antes da estrada, houve trilho. Antes do trem, o café. Antes do café, mata fechada. E antes da mata cortada, passos indígenas que conheciam cada dobra desse chão. Essas cidades não nasceram isoladas. Elas se dividiram, como células de um mesmo corpo. Pompéia vem primeiro no pensamento. Não só como cidade, mas como estrutura. Chão central, organizador, administrativo. Foi chão-mãe. Dela partiram limites, decretos, desmembramentos e cidades inteiras. Quintana nasce desse movimento. Primeiro lavoura, depois distrito, depois cidade. Mudou de nome, de gestão, até firmar identidade própria. Filha do trilho e da re...

📖 Capítulo 10: Tupã à sombra da figueira

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado Entrei em Tupã pelo trevo principal como quem retorna ao que escolhi um dia. A Gatuna não pediu pressa. Apenas virou o guidão e me conduziu até a sombra da figueira. Eu sei: ali, o tempo costuma respeitar quem senta. Desliguei a moto. Comprei um copo de caldo de cana, gelado, doce na medida certa. Tupã tem dessas coisas: não complica o que pode ser simples. Fiquei ali, ouvindo a cidade passar sem me atravessar. Foi nesse contexto que desabafei com a Gatuna. Contei que decidi morar em Tupã sem nunca ter vindo antes. Uma escolha pensada, adulta, mas sem garantias. Disse que cheguei e fiquei, e que a cidade não me perguntou nada, apenas abriu espaço para que eu sustentasse minha própria decisão. Falei dos meus filhos, nascidos ali, enquanto a cidade seguia funcionando. Tupã não parou para celebrar a vida. E talvez por isso mesmo tenha me ensinado tanto sobre continuidade. Disse que foi ali que me realizei como professor. Sal...