O Cego que coleciona histórias: 7º encontro
Quem cuida de quem cuida? O banco de cimento em frente à Santa Casa era um local de espera, para alguns de alegria e para outros de tristeza. Gente entrando e saindo, passos apressados, o barulho de uma maca, uma sirene distante que não terminava nunca. O Cego parou antes de sentar. Ouviu o tecido do uniforme roçar; alguém sentou-se sem cerimônia. — Meu nome é Marta… técnica de enfermagem. A voz vinha cansada antes mesmo das palavras. — Plantão longo? — perguntou ele, encostando o cajado no banco. — Tem plantão que não acaba quando a gente sai — ela soltou um riso curto, quase um engasgo. Um carro passou devagar. Um choro de criança vinha da sala de espera. — Hoje eu esqueci de dar boa noite pro meu filho. Faz três dias que só o vejo dormindo. O som do estalar de dedos dela denunciava o nervosismo. — Lá dentro, a gente segura a mão de quem tá indo embora. Fala que vai ficar tudo bem… mesmo sabendo que não vai. O vento trouxe cheiro de álcool hospitalar e café req...