📖 Capítulo 12: O texto final ou um manifesto?

🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado


A Gatuna está desligada.
Mas eu não.

Percorri trevos, cruzamentos, trilhos antigos, cidades que me formaram antes de eu perceber que estavam me ensinando.
Pompéia me deu identidade.
Quintana me fez pensar o silêncio.
Herculândia mostrou que o mapa nem sempre explica as divisões.
Tupã me ensinou permanência.

No começo da série, muitos acharam que era sobre uma moto.
Alguns pensaram que era sobre cegueira.
Mas sempre foi sobre vínculo.

Quando perdi a visão, não perdi a estrada.
Perdi a pressa.

Foi ali que entendi o que já tinha lido e não vivido: o essencial não se oferece aos olhos.
Oferece-se ao tempo.

A cada capítulo, a estrada deixou de ser chão e virou complemento.
O ronco da Gatuna deixou de ser barulho e virou memória vibrando no peito.
A cidade deixou de ser cenário e ganhou vida.

E com tudo isso, aprendi que domesticar não é dominar.
É cuidar do que nasce entre dois.
Entre um homem e sua máquina.
Entre um pai e seus filhos.
Entre um professor e a cidade onde ensinou antes de aprender.

Disseram que era imaginação conversar com o asfalto.
Mas quem só acredita no que vê nunca escutou uma figueira falar.

A estrada não foi reta — e ainda bem.
Foi curva, perda, reinvenção.
Foi queda e reequilíbrio.

Este texto-manifesto não apresenta a série.
Explica ela.

Não escrevi para quem corre.
Escrevi para quem já entendeu que ver não é a única função dos olhos.
É consequência do encontro.

Se algo ficou desses quilômetros todos, que seja isso:

O mundo não se revela para quem acelera.
Ele se entrega para quem permanece.

E eu permaneço.

Não porque enxergo.
Mas porque aprendi a sentir direção mesmo no escuro.

A série termina aqui.
A estrada, não!



Descrição da ilustração 

A imagem mostra um homem cego, por volta dos 50 anos, alto e forte, em pé ao lado de sua moto estradeira. Ele veste boina preta, óculos escuros, jaqueta de couro preta, calça escura e botas de motoqueiro. O cabelo é curto e castanho. Ele não usa barba nem bigode. No rosto, há um sorriso discreto, sereno.

Ele segura uma bengala branca com a mão esquerda, apoiada no chão. O corpo está levemente inclinado em direção à moto, transmitindo vínculo e segurança.

A moto está posicionada ao lado dele, robusta, no estilo custom clássico semelhante a uma Harley-Davidson. A estrutura é predominantemente preta, com muitos detalhes metálicos cromados no motor. O tanque é vermelho intenso e traz a palavra “Gatuna” escrita em amarelo, com destaque claro.

O cenário é diurno, com céu azul e nuvens claras. Ao fundo, aparecem elementos típicos de cidades do interior da Alta Paulista: trilhos de trem passando ao lado esquerdo da imagem, uma pequena igreja com torre, casas baixas e dois reservatórios de água elevados. A paisagem é rural, com campos verdes e tons terrosos suaves.

Na parte inferior da imagem há uma faixa horizontal com textura levemente envelhecida em tom alaranjado/terra. Nela está escrito o título da série:
“O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado”.

Abaixo ou próximo da faixa aparece, de forma discreta, a identificação:
“Capítulo 12: O texto final ou um manifesto?”

O clima geral é aventureiro e sensorial, mas também contemplativo. A iluminação é natural de dia, sem dramatizações exageradas. A composição transmite permanência, vínculo e conclusão — não como fim, mas como continuidade.


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A voz da consciência

Crônica da Segunda: A festa de formatura do meu sobrinho