📖 Capítulo 10: Tupã à sombra da figueira
🏍️😎🧑🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado
Entrei em Tupã pelo trevo principal como quem retorna ao que escolhi um dia. A Gatuna não pediu pressa. Apenas virou o guidão e me conduziu até a sombra da figueira. Eu sei: ali, o tempo costuma respeitar quem senta.
Desliguei a moto. Comprei um copo de caldo de cana, gelado, doce na medida certa. Tupã tem dessas coisas: não complica o que pode ser simples. Fiquei ali, ouvindo a cidade passar sem me atravessar.
Foi nesse contexto que desabafei com a Gatuna.
Contei que decidi morar em Tupã sem nunca ter vindo antes. Uma escolha pensada, adulta, mas sem garantias. Disse que cheguei e fiquei, e que a cidade não me perguntou nada, apenas abriu espaço para que eu sustentasse minha própria decisão.
Falei dos meus filhos, nascidos ali, enquanto a cidade seguia funcionando. Tupã não parou para celebrar a vida. E talvez por isso mesmo tenha me ensinado tanto sobre continuidade.
Disse que foi ali que me realizei como professor. Sala de aula, rotina, responsabilidade. Trabalho vivido, esperado e sonhado. Tupã permitiu que eu fosse quem era, sem maquiagem, fazendo a diferença e levando alunos a refletirem sobre a necessidade de construir um mundo melhor para todos.
Nesse instante, meus olhos se encheram de lágrimas. A Gatuna tremeu, como se sentisse o mesmo.
Depois de um tempo em silêncio, falei da cegueira. Não como drama, mas como divisor. A cidade não se afastou. Não resolveu. Não empurrou. Apenas respeitou. E respeitar, às vezes, é o maior gesto de acolhimento que uma pessoa pode ter.
A garapa acabou. A sombra continuou.
Subi na Gatuna pensando na minha própria história.
No caminho, os sinos da Matriz de São Pedro tocaram. Não precisei perguntar a hora. O som bastou. Entrei, sentei e rezei. Agradeci a vida, a família, os amigos. Pedi força. Abracei a cruz.
Saí sabendo: Tupã não é a cidade onde tudo deu certo.
É a cidade onde sigo, com fé, fazendo dar.
Descrição da imagem:
A imagem é uma ilustração colorida com aparência de pintura artística ambientada durante o dia.
No centro da cena há um homem cego por volta dos 50 anos forte e alto. Ele está sentado em um banco de madeira simples sob a sombra ampla de uma grande figueira. Usa boina escura óculos escuros jaqueta de motoqueiro preta calça escura e botas. Seu rosto transmite serenidade com um sorriso discreto de quem está em paz com o momento.
Na mão direita ele segura um copo transparente de caldo de cana claro quase dourado. Ao lado dele apoiada no banco e tocando o chão está sua bengala branca visível e integrada à cena sem tom dramático.
À sua direita está a moto Gatuna uma moto estradeira grande no estilo Harley Davidson. Ela é predominantemente preta com o tanque vermelho. No tanque em letras amarelas bem visíveis está escrito o nome Gatuna. A moto está desligada firme como se também estivesse descansando.
Ao fundo de forma suave e discreta aparece a cidade de Tupã. É possível perceber uma igreja com duas torres referência à Matriz de São Pedro surgindo entre árvores e construções baixas sem roubar a atenção do primeiro plano.
A luz do dia é equilibrada sem exageros. A sombra da figueira cobre parcialmente o personagem e a moto criando uma sensação de frescor pausa e acolhimento. As cores são quentes mas suaves transmitindo calma e continuidade.
Na parte superior da imagem há uma faixa com o título da série O cego e sua moto Entre o real e o imaginado.
Na parte inferior outra faixa traz a assinatura Capítulo 10 Tupã à sombra da figueira.
A imagem transmite a sensação de descanso consciente pertencimento e reflexão. Não é um momento de chegada nem de partida mas de permanência.

Comentários