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Quando a gente começa a enxergar defeitos em quem ensinou a gente a viver, é desrespeito?

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O Cego que Coleciona Histórias: 18º Encontro A quermesse de São Pedro seguia animada. O sino da igreja acabara de tocar, crianças corriam atrás de balões e o locutor do bingo tentava vencer o barulho das conversas. O cheiro de frango assado e quentão passeava entre as mesas espalhadas pela praça. O Cego estava sentado perto da barraca dos doces quando uma cadeira raspou devagar. — Sou o Tadeu. Meu pai é dono da loja mais antiga da avenida. Posso me sentar um pouco? O Cego fez sinal de sim com a cabeça.  Ele demorou alguns segundos antes de começar. — Estou bravo com o pai. A indignação vinha antes das palavras. — Vive dizendo que ama o Brasil. Para a Copa encheu a loja de bandeiras, colocou música patriótica...  — Mas não dispensou os funcionários durante os jogos da Seleção. Ao longe, alguém comemorou um prêmio do bingo. Palmas cobriram o silêncio por alguns instantes. — Sabe o pior? Eu cresci admirando meu pai. Mas estou descobrindo um pai que eu nunca imaginei. Uma voluntár...

A dona Zizi também te benzeu?

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O Cego que Coleciona Histórias — 17º Encontro A paineira da praça da fonte continuava espalhando sombra sobre o banco de madeira gasto pelo tempo. O sino da igreja tinha acabado de bater três horas. O Cego estava sentado ali quando ouviu passos lentos se aproximando, arrastando as chinelas. — Sou a Zilma, disse uma voz envelhecida... O povo me conhecia como a dona Zizi benzedeira. Ela se sentou ao lado dele. O banco respondeu com um rangido comprido. Por alguns instantes, ficaram ouvindo o vento mexer nas folhas. — Ainda benze? Perguntou o Cego. — Ainda. A resposta veio rápida. Depois demorou. — Mas quase ninguém aparece mais. Zizi mexeu em alguma coisa dentro da bolsa. — Carrego isso comigo há mais de quarenta anos. Ela colocou um pequeno caderno nas mãos do Cego. As páginas estavam gastas nas bordas. — O que tem aqui? perguntou ele. — Nome de gente. Ela deu uma pausa. — Criança com susto. Olho gordo. Bico de papagaio. Quebranto. espinhela caída. Também fiz muitos partos. O vento viro...

O Cego que Coleciona Histórias — 16º Encontro

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 Já brigou por um posicionamento e perdeu alguém? O bar do Santana estava naquela hora da tarde em que as pessoas passavam por lá para saberem os comentários da cidade. O cheiro de torresmo frito chegava antes de qualquer voz. Foi o Santana que chamou o Cego... — Senta aqui, Cego. Tem um sujeito precisando mais de conversa do que de cerveja. Ouviu a cadeira arrastar. — Sou o Gilberto, disse a voz ao lado do Cego.  Apertou a mão dele. Ela chegou firme. Mas voltou devagar. — Briguei com meu genro no grupo da família. Fez barulho ao pegar o copo. Colocou de volta na mesa sem beber. — Política. A palavra caiu pesada entre eles. Do outro lado do balcão, alguém pediu uma dose. Gilberto continuou: — Falei coisa que não devia. Saí do grupo. Ele também. O barulho dos dedos dele batendo no tampo da mesa parecia procurar alguma coisa. — E agora? — Agora nada. Ficaram em silêncio. Então o Cego ouviu o som de folhas de jornal. — Tô com isso levando pra cá e pra lá faz três dias. — Descobri...

O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro

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 Você ganhou o mundo. E a si mesmo? A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde. O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. O Cego caminhou até um dos bancos da praça. Ali, alguém suspirou antes de falar. — Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida. A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo. O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores. — E encontrou o que ? Cléo soltou uma risada breve. — Encontrei tudo. O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta. — Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem. Enquanto falava, girava algo entre os dedos. O Cego ouviu o leve atrito das contas. — Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos. O terço continuava deslizando entre seus dedos. — Estranho... nunca...

O Cego que Coleciona Histórias: 14º Encontro

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 Há pessoas que não deixam um lugar de uma vez... Vão saindo aos poucos, até esquecerem o caminho de volta. Juca chegou sem anunciar a própria chegada. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. Havia cansaço nos passos. Não o do corpo, mas o de quem passou anos longe de si mesmo. O Cego percebeu antes da voz. Aquele homem carregava um silêncio antigo. Não o de quem não fala, mas o de quem repetiu tantas vezes a própria história por dentro que as palavras perderam a força de sair. Sentou-se. A cadeira rangeu. — Faz muito tempo — disse. — Eu nunca mais voltei. — Voltou onde? — perguntou o Cego. Juca respirou fundo. — Na minha cidade. Na terrinha onde nasci. — Fui embora achando que era provisório. Trabalho, estudo… essas promessas que fazem a gente acreditar que ainda vai dar tempo. Estalou os dedos. Um som seco. — Depois, um ano virou outro. E, quando percebi… não sabia mais voltar. O Cego ouviu o que existia atrás da frase: não era distância. Era desenraizamento. — E o que ficou lá? Ju...

O Cego que Coleciona Histórias: 13º Encontro

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 “Como seguir em frente quando não existe certeza sobre o caminho certo?” Nika entrou sem bater, como se já soubesse que aquele espaço não exigia explicações. O Cego percebeu a presença antes mesmo do som da porta terminar de se fechar. Havia nela uma hesitação que não era de passos, mas de destino. Sentou devagar, as mãos apertando a alça da mochila escolar como quem tenta segurar algo que já está escorregando há muito tempo. — Eu não sei o que fazer da minha vida, Disse, quase num sopro. O Cego inclinou a cabeça levemente, como se escutasse mais do que a frase. — Dezessete anos, Nika  continuou: e todo mundo parece saber. Medicina, direito, engenharia… e eu só sinto um vazio quando tento escolher. Lá fora, um ônibus passou rápido demais para aquela rua estreita. Dentro, o tempo parecia não ter pressa. — E se eu escolher errado? ela perguntou. — E se eu me prender numa vida que não é minha? O Cego respirou antes de responder, como quem procura palavras que não machuquem. — O ...

O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro

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O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo? O avô Antônio e as Figurinhas da Copa A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi. O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente. Plástico sendo ajeitado. Depois outro. Os passos adentraram o portão. — Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio. O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando. — Álbum? perguntou o Cego. Antônio riu. — Como você sabe? — Figurinha tem um barulho próprio. O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória. — A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira. Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos ne...

O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro

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 O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...

O Cego que coleciona histórias: 10º Encontro

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 O que revela o invisível quando nos deixamos escutar? O dom do ouvir Dizem que o silêncio é ausência. Para o Cego, nunca foi. É nele que as histórias respiram antes de nascer. Desde que o cajado cruzou seu portão, algo mudou. A casa segue a mesma, as paredes não se moveram, mas o ar… aprendeu outro ritmo. O cajado repousa encostado, como quem dorme de olhos abertos. Não chama atenção. Mas quando o cego o firma no chão, o mundo desacelera. As palavras perdem a pressa. E, por um instante raro, ninguém precisa fingir. Há dias em que a madeira pesa. Não nas mãos, mais fundo, como se carregasse aquilo que não foi dito direito. Em outros, aquece devagar, quase imperceptível, como se reconhecesse algo leve demais para virar palavra. O cego não pergunta muito. Aprendeu que nem toda verdade gosta de ser interrogada. Algumas só aparecem quando encontram espaço. Quem chega traz um nó. Quem sai, às vezes, ainda o carrega, mas já sabe onde ele começa. O cego não guarda as histórias. Nunca guar...

O Cego que coleciona histórias: 9º Encontro

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 Vale a pena se perder… pra não perder tudo? O sol da manhã já tinha tomado a calçada do edifício da redação quando ela chegou. Passos rápidos. Parou. O som do papel sendo amassado na mão dela era seco, nervoso. Parecia o som de uma pele que descola. O vento carregava cheiro de café velho com papel esquecido. Ao fundo, um locutor ainda falava, como se o mundo não soubesse parar.  Foi então que ela percebeu o Cego. Ele estava imóvel, mas o som das batidas rítmicas e lentas de seu cajado no concreto pareciam contar os segundos que ela não tinha. Toc-toc-toc. — Me pediram pra não publicar… Camila, jornalista, tinha nas mãos um esquema sujo. Provas suficientes. Nomes influentes da cidade. Mas o dono do portal mandou segurar. Se publicasse, perdia o emprego. Se obedecesse, perdia a si mesma. — Eu lutei tanto pra chegar até aqui… e agora parece que tenho que escolher entre tudo isso e quem eu sou. O cego parou a batida do cajado. O silêncio que se seguiu pesou mais que o sol. — O pa...

O Cego que coleciona histórias: 8º Encontro

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Por que alguém que parece ter todas as respostas ainda carrega tanta raiva no peito? O sol batia forte na Pedra, na esquina do banco em frente à padaria. O cheiro de pão quente saía da porta aberta e se misturava com o odor acre da gasolina dos carros. Alguém batia o pé no chão, um ritmo seco e nervoso, como quem espera briga. O Cego parou. O cajado tocou o meio-fio, toc-toc-toc. Sentiu o ar pesado, o cheiro de suor ácido e o som do tecido sintético de uma camisa sendo repuxado no peito. — Tô aqui, seu Cego. Sou o Jorjão, o corretor. Todo mundo me conhece... A voz era grossa e carregava uma urgência que não pedia licença. — Chegou tem que me ouvir... —Vacina? Tomo nem amarrado. Mulher minha não sai da cidade pra estudar, não. Em casa, quem dá a última palavra sou eu. Sempre foi assim. Agora, tão falando que eu tenho que me cuidar.  vou comprar aquela canetinha pra emagrecer pela internet. Barato. Sem depender dessa máfia aí de médicos e laboratórios. Ele riu curto. A mão amassava u...

O Cego que coleciona histórias: 7º encontro

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Quem cuida de quem cuida? O banco de cimento em frente à Santa Casa era um local de espera, para alguns de alegria e para outros de tristeza.  Gente entrando e saindo, passos apressados, o barulho de uma maca, uma sirene distante que não terminava nunca. O Cego parou antes de sentar. Ouviu o tecido do uniforme roçar; alguém sentou-se sem cerimônia. — Meu nome é Marta… técnica de enfermagem.  A voz vinha cansada antes mesmo das palavras.  — Plantão longo? — perguntou ele, encostando o cajado no banco. — Tem plantão que não acaba quando a gente sai — ela soltou um riso curto, quase um engasgo. Um carro passou devagar. Um choro de criança vinha da sala de espera. — Hoje eu esqueci de dar boa noite pro meu filho. Faz três dias que só o vejo dormindo.  O som do estalar de dedos dela denunciava o nervosismo. — Lá dentro, a gente segura a mão de quem tá indo embora. Fala que vai ficar tudo bem… mesmo sabendo que não vai. O vento trouxe cheiro de álcool hospitalar e café req...

O Cego que Coleciona Histórias: 6º Encontro

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Até onde vai o preço de dizer não? A sombra da árvore na praça da matriz de São Pedro, segurava o calor da tarde como conversa antiga. O ar parecia suspenso em Tupã- SP. Um motoqueiro passou acelerando, o escapamento estourado rasgando o silêncio da rua. Toc-Toc-Toc. A ponta do cajado encontrou a calçada até parar junto ao banco já gasto pelo uso. O Cego percebeu passos firmes se aproximando. A respiração vinha pesada. Não era só cansaço. — Boa tarde… meu nome é Durval. Sou fiscal da prefeitura. Ele limpou a garganta, como quem organiza o que ainda está confuso por dentro. — Posso te contar algo muito sério que aconteceu comigo? O Cego inclinou levemente a cabeça. — Ontem fechei uma lanchonete na avenida Tamoios. Falta de higiene. Um carro passou com o som grave vibrando o ar ao redor. — O dono me chamou no canto… disse que dava um jeito. Durval parece ter chutado um pedregulho. — Jeito quer dizer dinheiro. O vento mexeu as folhas do galho acima deles. — Eu disse não. O silêncio que ve...

O cego que coleciona histórias: 5º Encontro

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Já sentiu que não encontrou algo — mas foi encontrado? Certa vez, Raul Seixas cantou que teve um sonho de sonhador... E foi numa vibração parecida que o Cego entrou em um transe profundo, sendo apresentado à história do cajado. O cajado não foi fabricado. Foi tecido pelo tempo. Dizem que nasceu de uma árvore crescida numa encruzilhada antiga, lugar onde viajantes descansavam antes de escolher caminhos. Ali ficaram despedidas, promessas e segredos soprados ao vento. A madeira se desenvolveu escutando tudo isso e muito mais. Antes de chegar na casa do cego, em Tupã, passou por outras mãos... Uma benzedeira do cerrado. Um monge baiano. Uma contadora de causos à beira do rio Amazonas. E um ancião que dizia interpretar o silêncio nos pampas. Nunca procurou força. Procurava repouso. E naquele sonho o cego teve algo revelador... Toc-Toc-Toc. O cajado que, no dia anterior, havia sido deixado no portão de sua casa, fora trazido pelo Vento do Encontro. Não foi acaso. Foi escolha! Ainda atordoado...

O Cego que Coleciona Histórias: 4º Encontro

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Que tipo de noite faz alguém parar no portão de um estranho? A varanda cheirava a chuvas de Março. O balanço rangia devagar, marcando o tempo com o ventilador de teto que girava preguiçoso. Passos na calçada pararam no portão da casa do Cego. — Sou a Tiana. A que mudou pra casa da frente. A voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante de um carro subindo a ladeira. — Senta aqui. O tecido da cadeira esticou quando ela se acomodou. Um isqueiro clicou. Fumaça quente passou perto do rosto dele. — Eu vi o senhor aqui ontem. Sozinho. Pensei que talvez… o senhor entendesse de noites que pesam. Silêncio. Só o balanço e o cigarro crepitando. — Noite pesada tem cheiro diferente? Ela riu curto, seco. — Tem. Cheiro de coisa que a gente jurou que deixou pra trás. E o corpo lembra antes. Ele deixou o balanço marcar mais dois compassos. — Faz quanto tempo? — Três anos, sete meses… e uns dias. — A voz falhou no final. — Mas hoje o entregador de gás tinha o mesmo cheiro que os antigos “amigos” ...

O Cego que Coleciona Histórias: 3º Encontro

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Quando foi que a mentira começou a pesar mais que a própria vida? O fim da tarde pousava devagar sobre as casas da rua. O radinho de pilha tocava sertanejo em cima da mesa. De vez em quando uma moto passava levantando poeira fina do asfalto gasto. Na varanda, o Cego estava sentado na cadeira de madeira. O cajado atravessado entre as mãos. O portão rangiu. Passos demorados subiram os três degraus da varanda. O homem limpou a garganta antes de falar. — Sou o Divino… seu vizinho da outra esquina. Acho que o senhor já deve ter ouvido falar de mim por aí. O Cego inclinou levemente a cabeça. — Pode chegar. A voz do homem tinha aquele esforço de quem está acostumado a falar alto… mas agora parecia menor. Um molho de chaves girava nervoso dentro da mão dele. — O povo diz que eu conto vantagem demais. O vento mexeu nas folhas da árvore defronte da casa. Divino soltou um riso curto. — Eu dizia que tinha negócio em Marília… caminhão rodando… dinheiro entrando. O molho de chaves parou de girar. Si...

O Cego que Coleciona Histórias: 2º Encontro

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Quanto custa descobrir que a própria esperança também pode enganar a gente? Era meio de tarde quando o ferro do portão do Cego tremeu devagar. Não foi batida forte. Foi como quem chama sem querer fazer barulho demais. Na rua, uma moto passou levantando poeira seca. Ao longe, um vendedor de pamonha gritou seu pregão arrastado. Do lado de fora, alguém respirava fundo antes de falar. — Sou a Laura… moro ali na rua de baixo… quase em frente da venda do seu Anselmo. O Cego abriu o portão. Ela entrou sem pedir licença. O chinelo raspava no chão como quem ainda não decidiu se fica ou volta. Por alguns segundos só se ouviu o pano da bolsa sendo apertado. — O senhor já ouviu falar no golpe do bilhete premiado? O Cego disse: Já ouvi falar.... A mulher soltou um riso curto. Riso que parecia pedir desculpa. — Pois é… eu ouvi também… mas achei que comigo não ia acontecer. Um caminhão passou na avenida próxima. O cajado vibrou forte nas mãos do cego. Toc-Toc-Toc. Ela continuou: — O homem chorava… di...