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O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro

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 O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...

O Cego que coleciona histórias: 10º Encontro

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 O que revela o invisível quando nos deixamos escutar? O dom do ouvir Dizem que o silêncio é ausência. Para o Cego, nunca foi. É nele que as histórias respiram antes de nascer. Desde que o cajado cruzou seu portão, algo mudou. A casa segue a mesma, as paredes não se moveram, mas o ar… aprendeu outro ritmo. O cajado repousa encostado, como quem dorme de olhos abertos. Não chama atenção. Mas quando o cego o firma no chão, o mundo desacelera. As palavras perdem a pressa. E, por um instante raro, ninguém precisa fingir. Há dias em que a madeira pesa. Não nas mãos, mais fundo, como se carregasse aquilo que não foi dito direito. Em outros, aquece devagar, quase imperceptível, como se reconhecesse algo leve demais para virar palavra. O cego não pergunta muito. Aprendeu que nem toda verdade gosta de ser interrogada. Algumas só aparecem quando encontram espaço. Quem chega traz um nó. Quem sai, às vezes, ainda o carrega, mas já sabe onde ele começa. O cego não guarda as histórias. Nunca guar...

O Cego que coleciona histórias: 9º Encontro

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 Vale a pena se perder… pra não perder tudo? O sol da manhã já tinha tomado a calçada do edifício da redação quando ela chegou. Passos rápidos. Parou. O som do papel sendo amassado na mão dela era seco, nervoso. Parecia o som de uma pele que descola. O vento carregava cheiro de café velho com papel esquecido. Ao fundo, um locutor ainda falava, como se o mundo não soubesse parar.  Foi então que ela percebeu o Cego. Ele estava imóvel, mas o som das batidas rítmicas e lentas de seu cajado no concreto pareciam contar os segundos que ela não tinha. Toc-toc-toc. — Me pediram pra não publicar… Camila, jornalista, tinha nas mãos um esquema sujo. Provas suficientes. Nomes influentes da cidade. Mas o dono do portal mandou segurar. Se publicasse, perdia o emprego. Se obedecesse, perdia a si mesma. — Eu lutei tanto pra chegar até aqui… e agora parece que tenho que escolher entre tudo isso e quem eu sou. O cego parou a batida do cajado. O silêncio que se seguiu pesou mais que o sol. — O pa...

O Cego que coleciona histórias: 8º Encontro

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Por que alguém que parece ter todas as respostas ainda carrega tanta raiva no peito? O sol batia forte na Pedra, na esquina do banco em frente à padaria. O cheiro de pão quente saía da porta aberta e se misturava com o odor acre da gasolina dos carros. Alguém batia o pé no chão, um ritmo seco e nervoso, como quem espera briga. O Cego parou. O cajado tocou o meio-fio, toc-toc-toc. Sentiu o ar pesado, o cheiro de suor ácido e o som do tecido sintético de uma camisa sendo repuxado no peito. — Tô aqui, seu Cego. Sou o Jorjão, o corretor. Todo mundo me conhece... A voz era grossa e carregava uma urgência que não pedia licença. — Chegou tem que me ouvir... —Vacina? Tomo nem amarrado. Mulher minha não sai da cidade pra estudar, não. Em casa, quem dá a última palavra sou eu. Sempre foi assim. Agora, tão falando que eu tenho que me cuidar.  vou comprar aquela canetinha pra emagrecer pela internet. Barato. Sem depender dessa máfia aí de médicos e laboratórios. Ele riu curto. A mão amassava u...

O Cego que coleciona histórias: 7º encontro

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Quem cuida de quem cuida? O banco de cimento em frente à Santa Casa era um local de espera, para alguns de alegria e para outros de tristeza.  Gente entrando e saindo, passos apressados, o barulho de uma maca, uma sirene distante que não terminava nunca. O Cego parou antes de sentar. Ouviu o tecido do uniforme roçar; alguém sentou-se sem cerimônia. — Meu nome é Marta… técnica de enfermagem.  A voz vinha cansada antes mesmo das palavras.  — Plantão longo? — perguntou ele, encostando o cajado no banco. — Tem plantão que não acaba quando a gente sai — ela soltou um riso curto, quase um engasgo. Um carro passou devagar. Um choro de criança vinha da sala de espera. — Hoje eu esqueci de dar boa noite pro meu filho. Faz três dias que só o vejo dormindo.  O som do estalar de dedos dela denunciava o nervosismo. — Lá dentro, a gente segura a mão de quem tá indo embora. Fala que vai ficar tudo bem… mesmo sabendo que não vai. O vento trouxe cheiro de álcool hospitalar e café req...

O Cego que Coleciona Histórias: 6º Encontro

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Até onde vai o preço de dizer não? A sombra da árvore na praça da matriz de São Pedro, segurava o calor da tarde como conversa antiga. O ar parecia suspenso em Tupã- SP. Um motoqueiro passou acelerando, o escapamento estourado rasgando o silêncio da rua. Toc-Toc-Toc. A ponta do cajado encontrou a calçada até parar junto ao banco já gasto pelo uso. O Cego percebeu passos firmes se aproximando. A respiração vinha pesada. Não era só cansaço. — Boa tarde… meu nome é Durval. Sou fiscal da prefeitura. Ele limpou a garganta, como quem organiza o que ainda está confuso por dentro. — Posso te contar algo muito sério que aconteceu comigo? O Cego inclinou levemente a cabeça. — Ontem fechei uma lanchonete na avenida Tamoios. Falta de higiene. Um carro passou com o som grave vibrando o ar ao redor. — O dono me chamou no canto… disse que dava um jeito. Durval parece ter chutado um pedregulho. — Jeito quer dizer dinheiro. O vento mexeu as folhas do galho acima deles. — Eu disse não. O silêncio que ve...

O cego que coleciona histórias: 5º Encontro

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Já sentiu que não encontrou algo — mas foi encontrado? Certa vez, Raul Seixas cantou que teve um sonho de sonhador... E foi numa vibração parecida que o Cego entrou em um transe profundo, sendo apresentado à história do cajado. O cajado não foi fabricado. Foi tecido pelo tempo. Dizem que nasceu de uma árvore crescida numa encruzilhada antiga, lugar onde viajantes descansavam antes de escolher caminhos. Ali ficaram despedidas, promessas e segredos soprados ao vento. A madeira se desenvolveu escutando tudo isso e muito mais. Antes de chegar na casa do cego, em Tupã, passou por outras mãos... Uma benzedeira do cerrado. Um monge baiano. Uma contadora de causos à beira do rio Amazonas. E um ancião que dizia interpretar o silêncio nos pampas. Nunca procurou força. Procurava repouso. E naquele sonho o cego teve algo revelador... Toc-Toc-Toc. O cajado que, no dia anterior, havia sido deixado no portão de sua casa, fora trazido pelo Vento do Encontro. Não foi acaso. Foi escolha! Ainda atordoado...

O Cego que Coleciona Histórias: 4º Encontro

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Que tipo de noite faz alguém parar no portão de um estranho? A varanda cheirava a chuvas de Março. O balanço rangia devagar, marcando o tempo com o ventilador de teto que girava preguiçoso. Passos na calçada pararam no portão da casa do Cego. — Sou a Tiana. A que mudou pra casa da frente. A voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante de um carro subindo a ladeira. — Senta aqui. O tecido da cadeira esticou quando ela se acomodou. Um isqueiro clicou. Fumaça quente passou perto do rosto dele. — Eu vi o senhor aqui ontem. Sozinho. Pensei que talvez… o senhor entendesse de noites que pesam. Silêncio. Só o balanço e o cigarro crepitando. — Noite pesada tem cheiro diferente? Ela riu curto, seco. — Tem. Cheiro de coisa que a gente jurou que deixou pra trás. E o corpo lembra antes. Ele deixou o balanço marcar mais dois compassos. — Faz quanto tempo? — Três anos, sete meses… e uns dias. — A voz falhou no final. — Mas hoje o entregador de gás tinha o mesmo cheiro que os antigos “amigos” ...

O Cego que Coleciona Histórias: 3º Encontro

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Quando foi que a mentira começou a pesar mais que a própria vida? O fim da tarde pousava devagar sobre as casas da rua. O radinho de pilha tocava sertanejo em cima da mesa. De vez em quando uma moto passava levantando poeira fina do asfalto gasto. Na varanda, o Cego estava sentado na cadeira de madeira. O cajado atravessado entre as mãos. O portão rangiu. Passos demorados subiram os três degraus da varanda. O homem limpou a garganta antes de falar. — Sou o Divino… seu vizinho da outra esquina. Acho que o senhor já deve ter ouvido falar de mim por aí. O Cego inclinou levemente a cabeça. — Pode chegar. A voz do homem tinha aquele esforço de quem está acostumado a falar alto… mas agora parecia menor. Um molho de chaves girava nervoso dentro da mão dele. — O povo diz que eu conto vantagem demais. O vento mexeu nas folhas da árvore defronte da casa. Divino soltou um riso curto. — Eu dizia que tinha negócio em Marília… caminhão rodando… dinheiro entrando. O molho de chaves parou de girar. Si...

O Cego que Coleciona Histórias: 2º Encontro

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Quanto custa descobrir que a própria esperança também pode enganar a gente? Era meio de tarde quando o ferro do portão do Cego tremeu devagar. Não foi batida forte. Foi como quem chama sem querer fazer barulho demais. Na rua, uma moto passou levantando poeira seca. Ao longe, um vendedor de pamonha gritou seu pregão arrastado. Do lado de fora, alguém respirava fundo antes de falar. — Sou a Laura… moro ali na rua de baixo… quase em frente da venda do seu Anselmo. O Cego abriu o portão. Ela entrou sem pedir licença. O chinelo raspava no chão como quem ainda não decidiu se fica ou volta. Por alguns segundos só se ouviu o pano da bolsa sendo apertado. — O senhor já ouviu falar no golpe do bilhete premiado? O Cego disse: Já ouvi falar.... A mulher soltou um riso curto. Riso que parecia pedir desculpa. — Pois é… eu ouvi também… mas achei que comigo não ia acontecer. Um caminhão passou na avenida próxima. O cajado vibrou forte nas mãos do cego. Toc-Toc-Toc. Ela continuou: — O homem chorava… di...

O cego que coleciona histórias: O primeiro encontro

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Manhã de quarta-feira sossegada em Tupã. O cego estava sentado em sua poltrona ouvindo os sons da cidade quando um vento veio forte. Logo depois, a campainha tocou. Ele se levantou para atender e, ao perguntar quem era, ouviu apenas toc-toc-toc, madeira batendo no ferro do portão. Não havia passos se afastando. Nem respiração do outro lado. Só o vento mexendo nas folhas da varanda, como se tivesse pressa de ir embora depois da entrega feita. Abriu. — Quem está aí? Silêncio. A mão buscou o vazio até encontrar algo encostado na grade. Madeira. Alta. Fria. Passou os dedos com cuidado, como quem lê um rosto desconhecido. Sentiu marcas profundas, rachaduras, partes lisas de tanto uso. Aquilo parecia ter andado muito até chegar aqui, pensou o cego Não havia ninguém. Só o cajado. Levou-o para dentro mais por educação que curiosidade, como se recolhesse algo esquecido por um visitante distraído. Encostou-o na parede e o dia seguiu comum demais para carregar mistério: café morno, o rádio distan...

📖 Capítulo 12: O texto final ou um manifesto?

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado A Gatuna está desligada. Mas eu não. Percorri trevos, cruzamentos, trilhos antigos, cidades que me formaram antes de eu perceber que estavam me ensinando. Pompéia me deu identidade. Quintana me fez pensar o silêncio. Herculândia mostrou que o mapa nem sempre explica as divisões. Tupã me ensinou permanência. No começo da série, muitos acharam que era sobre uma moto. Alguns pensaram que era sobre cegueira. Mas sempre foi sobre vínculo. Quando perdi a visão, não perdi a estrada. Perdi a pressa. Foi ali que entendi o que já tinha lido e não vivido: o essencial não se oferece aos olhos. Oferece-se ao tempo. A cada capítulo, a estrada deixou de ser chão e virou complemento. O ronco da Gatuna deixou de ser barulho e virou memória vibrando no peito. A cidade deixou de ser cenário e ganhou vida. E com tudo isso, aprendi que domesticar não é dominar. É cuidar do que nasce entre dois. Entre um homem e sua máquina. Entre um pai e seu...

Capítulo 11: No fio da história

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🏍️😎🧑‍🦯 Série – O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pompéia, Quintana, Herculândia e Tupã Matas, café, Trilhos e divisões invisíveis Estou no trecho. A Gatuna avança pela SP-294. O asfalto vibra sob os pneus como se guardasse memória. Não enxergo as placas, mas reconheço o território pelo som: o vento muda, o eco se abre, o chão responde. A rodovia fala e eu escuto. Antes da estrada, houve trilho. Antes do trem, o café. Antes do café, mata fechada. E antes da mata cortada, passos indígenas que conheciam cada dobra desse chão. Essas cidades não nasceram isoladas. Elas se dividiram, como células de um mesmo corpo. Pompéia vem primeiro no pensamento. Não só como cidade, mas como estrutura. Chão central, organizador, administrativo. Foi chão-mãe. Dela partiram limites, decretos, desmembramentos e cidades inteiras. Quintana nasce desse movimento. Primeiro lavoura, depois distrito, depois cidade. Mudou de nome, de gestão, até firmar identidade própria. Filha do trilho e da re...

📖 Capítulo 10: Tupã à sombra da figueira

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado Entrei em Tupã pelo trevo principal como quem retorna ao que escolhi um dia. A Gatuna não pediu pressa. Apenas virou o guidão e me conduziu até a sombra da figueira. Eu sei: ali, o tempo costuma respeitar quem senta. Desliguei a moto. Comprei um copo de caldo de cana, gelado, doce na medida certa. Tupã tem dessas coisas: não complica o que pode ser simples. Fiquei ali, ouvindo a cidade passar sem me atravessar. Foi nesse contexto que desabafei com a Gatuna. Contei que decidi morar em Tupã sem nunca ter vindo antes. Uma escolha pensada, adulta, mas sem garantias. Disse que cheguei e fiquei, e que a cidade não me perguntou nada, apenas abriu espaço para que eu sustentasse minha própria decisão. Falei dos meus filhos, nascidos ali, enquanto a cidade seguia funcionando. Tupã não parou para celebrar a vida. E talvez por isso mesmo tenha me ensinado tanto sobre continuidade. Disse que foi ali que me realizei como professor. Sal...

Capítulo 9: Raiz não faz barulho

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pare, leia e reflita A Gatuna diminui antes de eu pedir. Quando isso acontece, sei que não é distração. É aviso. Algumas cidades não querem ser atravessadas,  querem ser sentidas. Herculândia- SP é assim. Ela não se apresenta. Ela espera. Aqui, o tempo não corre. Ele trabalha. O cheiro de terra recém mexida chega antes das vozes, antes das casas, antes das histórias contadas em palavras. Descubro que essa cidade aprendeu a sobreviver fazendo duas coisas ao mesmo tempo: colhendo rápido e esperando muito. O amendoim sustenta o agora. As mudas, cuidadas em chácaras, apostam num futuro que quem planta talvez nunca veja. A moto para perto de uma delas. Escuto água correndo em mangueiras finas, passos lentos, mãos que lidam com plantas pequenas demais para chamar atenção. Alguém comenta, quase como quem não percebe a grandeza do que diz, que dali saem árvores para outras cidades. Herculândia não cresce só para si. Ela es...