O Cego que coleciona histórias: 10º Encontro
O que revela o invisível quando nos deixamos escutar?
O dom do ouvir
Dizem que o silêncio é ausência. Para o Cego, nunca foi.
É nele que as histórias respiram antes de nascer.
Desde que o cajado cruzou seu portão, algo mudou.
A casa segue a mesma, as paredes não se moveram, mas o ar… aprendeu outro ritmo.
O cajado repousa encostado, como quem dorme de olhos abertos.
Não chama atenção. Mas quando o cego o firma no chão, o mundo desacelera.
As palavras perdem a pressa.
E, por um instante raro, ninguém precisa fingir.
Há dias em que a madeira pesa. Não nas mãos, mais fundo, como se carregasse aquilo que não foi dito direito. Em outros, aquece devagar, quase imperceptível, como se reconhecesse algo leve demais para virar palavra.
O cego não pergunta muito.
Aprendeu que nem toda verdade gosta de ser interrogada.
Algumas só aparecem quando encontram espaço.
Quem chega traz um nó.
Quem sai, às vezes, ainda o carrega, mas já sabe onde ele começa.
O cego não guarda as histórias. Nunca guardou.
Há coisas que passam por ele como vento por fresta:
deixam som, deslocam o ar… e seguem.
Talvez seja por isso que ele continua de pé.
Naquela tarde, o vento veio diferente.
Tinha poeira, mas não era só estrada.
Havia algo mais antigo ali, algo que hesitava.
O cajado sentiu antes.
O cego também.
E, pela primeira vez em muito tempo, sorriu sem saber exatamente por quê.
A história ainda não tinha nome.
Mas já batia à porta.
E nem toda porta se abre por nada.
Quando ela se abrir…
talvez não seja só a história que você vai encarar.
Talvez seja aquilo que você ainda não teve coragem de ouvir.
Nem de dizer.
Descrição da imagem:
A casa respira diferente naquele fim de tarde.
A luz entra pela porta aberta como quem pede licença — lenta, dourada, preenchendo o chão de barro com um calor manso. Lá fora, o mundo segue, mas aqui dentro… o tempo escolheu ficar.
Ele está de pé.
Firme, sereno, como sempre. O cajado toca o chão com suavidade, quase em silêncio, como se conhecesse cada centímetro daquele espaço. Não é apoio. É presença.
A casa não mudou — os móveis são os mesmos, o cheiro é o mesmo, as paredes guardam o mesmo tom. Mas há algo no ar… um intervalo invisível, como se tudo estivesse à espera de ser ouvido.
Sobre a mesa, um caderno aberto. Palavras descansam ali, inacabadas, como histórias que ainda procuram coragem. Ao lado, uma caneca, já esquecida do calor, e livros empilhados — testemunhas silenciosas de tantas escutas.
Na parede, uma frase simples: ouvir é acolher.
Ele não lê. Ele sente.
O vento atravessa a porta e entra sem anúncio. Carrega poeira leve, dessas que não sujam — apenas revelam. Dança na luz como memória suspensa, como algo antigo que ainda não encontrou forma de dizer que voltou.
O cajado percebe primeiro.
Há dias em que ele pesa. Hoje… não.
Hoje ele parece atento.
O homem inclina levemente o rosto, como quem escuta além do som. Um quase sorriso surge — não de resposta, mas de reconhecimento.
Algo se aproxima.
Ainda não tem nome.
Ainda não tem rosto.
Mas já encontrou caminho.
E naquela casa simples, onde o silêncio nunca foi vazio,
uma história encosta na porta.
Não para entrar à força.
Mas para ver se, desta vez,
alguém está pronto para ouvir.
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