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Mostrando postagens de maio, 2026

O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro

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O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo? O avô Antônio e as Figurinhas da Copa A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi. O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente. Plástico sendo ajeitado. Depois outro. Os passos adentraram o portão. — Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio. O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando. — Álbum? perguntou o Cego. Antônio riu. — Como você sabe? — Figurinha tem um barulho próprio. O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória. — A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira. Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos ne...

O Cego que Coleciona Histórias: 11º Encontro

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 O que fica quando alguém leva… o que não volta? A dor de ter que continuar inteira depois de ter sido dividida Naquela noite, o vento veio sem pressa. Trouxe cuidado. Os passos pararam no portão como quem sabe onde está, mas já não sabe onde cabe. O Cego percebeu antes da voz. Havia um silêncio diferente ali. Não de quem guarda palavras, mas de quem já disse tudo… e não foi ouvida. Ana entrou sem pedir licença. Algumas dores não esperam convite. Quando se sentou, o cajado tocou o chão. Pesou. O Cego não perguntou. Esperou. — Eu achei que dar parte de mim nos tornaria inseparáveis, disse ela, sem rastro de choro. A mão de Ana repousou sobre o próprio corpo, como quem confirma o que ainda resta da geografia de si. — Eu dei um rim para ele. O silêncio ficou. — Seis meses depois… eu já não cabia na vida dele. O cajado não aqueceu, nem endureceu. Apenas sustentou. Ela não chorava. E isso dizia o bastante. Havia ali uma dor sem pressa de sair. Daquelas que não fazem barulho. Mas também ...

O Cego que coleciona histórias: 10º Encontro

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 O que revela o invisível quando nos deixamos escutar? O dom do ouvir Dizem que o silêncio é ausência. Para o Cego, nunca foi. É nele que as histórias respiram antes de nascer. Desde que o cajado cruzou seu portão, algo mudou. A casa segue a mesma, as paredes não se moveram, mas o ar… aprendeu outro ritmo. O cajado repousa encostado, como quem dorme de olhos abertos. Não chama atenção. Mas quando o cego o firma no chão, o mundo desacelera. As palavras perdem a pressa. E, por um instante raro, ninguém precisa fingir. Há dias em que a madeira pesa. Não nas mãos, mais fundo, como se carregasse aquilo que não foi dito direito. Em outros, aquece devagar, quase imperceptível, como se reconhecesse algo leve demais para virar palavra. O cego não pergunta muito. Aprendeu que nem toda verdade gosta de ser interrogada. Algumas só aparecem quando encontram espaço. Quem chega traz um nó. Quem sai, às vezes, ainda o carrega, mas já sabe onde ele começa. O cego não guarda as histórias. Nunca guar...