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Mostrando postagens de junho, 2026

O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro

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 Você ganhou o mundo. E a si mesmo? A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde. O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. O Cego caminhou até um dos bancos da praça. Ali, alguém suspirou antes de falar. — Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida. A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo. O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores. — E encontrou o que ? Cléo soltou uma risada breve. — Encontrei tudo. O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta. — Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem. Enquanto falava, girava algo entre os dedos. O Cego ouviu o leve atrito das contas. — Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos. O terço continuava deslizando entre seus dedos. — Estranho... nunca...

O Cego que Coleciona Histórias: 14º Encontro

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 Há pessoas que não deixam um lugar de uma vez... Vão saindo aos poucos, até esquecerem o caminho de volta. Juca chegou sem anunciar a própria chegada. O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc. Havia cansaço nos passos. Não o do corpo, mas o de quem passou anos longe de si mesmo. O Cego percebeu antes da voz. Aquele homem carregava um silêncio antigo. Não o de quem não fala, mas o de quem repetiu tantas vezes a própria história por dentro que as palavras perderam a força de sair. Sentou-se. A cadeira rangeu. — Faz muito tempo — disse. — Eu nunca mais voltei. — Voltou onde? — perguntou o Cego. Juca respirou fundo. — Na minha cidade. Na terrinha onde nasci. — Fui embora achando que era provisório. Trabalho, estudo… essas promessas que fazem a gente acreditar que ainda vai dar tempo. Estalou os dedos. Um som seco. — Depois, um ano virou outro. E, quando percebi… não sabia mais voltar. O Cego ouviu o que existia atrás da frase: não era distância. Era desenraizamento. — E o que ficou lá? Ju...

O Cego que Coleciona Histórias: 13º Encontro

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 “Como seguir em frente quando não existe certeza sobre o caminho certo?” Nika entrou sem bater, como se já soubesse que aquele espaço não exigia explicações. O Cego percebeu a presença antes mesmo do som da porta terminar de se fechar. Havia nela uma hesitação que não era de passos, mas de destino. Sentou devagar, as mãos apertando a alça da mochila escolar como quem tenta segurar algo que já está escorregando há muito tempo. — Eu não sei o que fazer da minha vida, Disse, quase num sopro. O Cego inclinou a cabeça levemente, como se escutasse mais do que a frase. — Dezessete anos, Nika  continuou: e todo mundo parece saber. Medicina, direito, engenharia… e eu só sinto um vazio quando tento escolher. Lá fora, um ônibus passou rápido demais para aquela rua estreita. Dentro, o tempo parecia não ter pressa. — E se eu escolher errado? ela perguntou. — E se eu me prender numa vida que não é minha? O Cego respirou antes de responder, como quem procura palavras que não machuquem. — O ...