O Cego que Coleciona Histórias: 14º Encontro

 Há pessoas que não deixam um lugar de uma vez...

Vão saindo aos poucos, até esquecerem o caminho de volta.


Juca chegou sem anunciar a própria chegada.


O cajado tocou o chão.

Toc. Toc. Toc.


Havia cansaço nos passos. Não o do corpo, mas o de quem passou anos longe de si mesmo.


O Cego percebeu antes da voz.

Aquele homem carregava um silêncio antigo. Não o de quem não fala, mas o de quem repetiu tantas vezes a própria história por dentro que as palavras perderam a força de sair.


Sentou-se.

A cadeira rangeu.


— Faz muito tempo — disse.

— Eu nunca mais voltei.


— Voltou onde? — perguntou o Cego.


Juca respirou fundo.


— Na minha cidade. Na terrinha onde nasci.

— Fui embora achando que era provisório. Trabalho, estudo… essas promessas que fazem a gente acreditar que ainda vai dar tempo.


Estalou os dedos. Um som seco.


— Depois, um ano virou outro. E, quando percebi… não sabia mais voltar.


O Cego ouviu o que existia atrás da frase: não era distância. Era desenraizamento.


— E o que ficou lá?


Juca ficou pensativo.


— Minha identidade.


A resposta veio limpa demais.

E por isso doeu mais.


O silêncio parecia cheio de poeira e vozes antigas.


— Eu parei de saber voltar, completou Juca.


Agora a verdade existia inteira.


Não era a cidade que tinha desaparecido.


Era o caminho.


— Ainda sonho com ela, falou baixinho.

— A casa em que morei…

— A escola…

— A praça da igreja…


Fez uma pausa.


— No sonho, tudo continua lá. Só eu que não.


— E quando acorda?


Juca se remexeu na cadeira.


— Eu continuo indo embora.


Ficaram em silêncio.


Depois, já na porta, ele perguntou:


— O senhor acha que ainda dá tempo?


O Cego pensou antes de responder.


— Tem coisas que não voltam.

— Mas existem coisas que finalmente param de fugir.


Juca saiu devagar.


E os passos dele pelo corredor não pareciam os de alguém indo embora.


Pareciam os de alguém que, pela primeira vez em muitos anos, tinha parado de partir.



Descrição da imagem:


A tarde parecia ter escolhido aquele lugar para descansar.


Na varanda simples de uma antiga casa do interior, o homem de boina marrom permanecia sentado como quem conhece o valor dos silêncios. Os óculos escuros escondiam os olhos, mas não a serenidade. Em uma das mãos, o cajado gasto pelo tempo repousava firme, como um velho companheiro de estrada.


À sua frente, outro homem ocupava a cadeira sem ocupar o próprio coração por inteiro. Havia algo em sua postura que lembrava quem passou anos caminhando para longe de alguma coisa que amava.


A luz dourada do fim da tarde atravessava a rua de pedras e desenhava sombras compridas entre as árvores. Ao longe, a igreja observava a cena em silêncio, como guardiã das memórias que insistem em permanecer onde nasceram.


Nas paredes, objetos simples contavam histórias sem pressa. Sobre uma placa, a frase parecia resumir tudo: escutar também é acolher.


E talvez fosse exatamente isso que acontecia ali.


Não era uma conversa comum. Era um reencontro invisível. Não entre duas pessoas, mas entre um homem e aquilo que ele havia deixado para trás.


Enquanto a cidade seguia respirando devagar, algo parecia voltar para casa.


Não pelos caminhos da estrada.


Mas pelos caminhos da alma.


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