O Cego que Coleciona Histórias: 13º Encontro
“Como seguir em frente quando não existe certeza sobre o caminho certo?”
Nika entrou sem bater, como se já soubesse que aquele espaço não exigia explicações. O Cego percebeu a presença antes mesmo do som da porta terminar de se fechar. Havia nela uma hesitação que não era de passos, mas de destino.
Sentou devagar, as mãos apertando a alça da mochila escolar como quem tenta segurar algo que já está escorregando há muito tempo.
— Eu não sei o que fazer da minha vida, Disse, quase num sopro.
O Cego inclinou a cabeça levemente, como se escutasse mais do que a frase.
— Dezessete anos, Nika continuou: e todo mundo parece saber. Medicina, direito, engenharia… e eu só sinto um vazio quando tento escolher.
Lá fora, um ônibus passou rápido demais para aquela rua estreita. Dentro, o tempo parecia não ter pressa.
— E se eu escolher errado? ela perguntou. — E se eu me prender numa vida que não é minha?
O Cego respirou antes de responder, como quem procura palavras que não machuquem.
— O erro que você teme… talvez não seja escolher errado. Talvez seja acreditar que existe uma escolha perfeita.
A garota suspirou profundo.
— Mas eu queria ter certeza.
— Certeza é uma forma de parar o mundo para não ter que caminhar com ele.
Ela sorriu sem humor, um gesto curto, quase quebrado.
— Eu só queria alguém que dissesse o que fazer.
— E se ninguém disser, ele respondeu — talvez isso não seja abandono. Talvez seja caminho.
O ventilador no canto insistia em girar, como se também pensasse devagar.
Nika ficou em silêncio por um longo tempo. Quando falou, a voz já não vinha tão apertada.
— E se eu falhar?
— Você já está vivendo. O resto é só direção, não sentença.
Ela se levantou sem pressa. Não havia resposta pronta no rosto dela, mas havia algo mais leve entre os ombros.
Antes de sair, Nika ouviu o Cego dizer:
"ninguém escolhe sem medo, só aprende a caminhar com ele."
Descrição da imagem:
A imagem mostra um fim de tarde silencioso em uma pequena cidade do interior paulista. A luz dourada entra pela porta aberta e atravessa a sala como se o tempo tivesse desacelerado ali dentro. O ambiente é simples, acolhedor e carregado de memória: móveis de madeira escura, livros antigos, paredes gastas pelo tempo e um ventilador antigo preso à parede reforçam a sensação de cotidiano vivido.
No centro da cena está o Cego. Ele aparece sentado com postura firme e tranquila, segurando o cajado de madeira marcado pelo uso. Usa boina marrom, óculos escuros, camiseta azul de tom sóbrio, calça clara de algodão cru e sandálias de couro gastas. O rosto transmite serenidade e escuta profunda, como alguém acostumado a acolher dores sem interrompê-las.
À sua frente está a jovem do encontro. Ela aparece sentada de costas parcialmente para o observador, com mochila escolar nos ombros, corpo inclinado levemente para frente e expressão corporal carregada de dúvida e cansaço emocional. A postura dela transmite exatamente a hesitação descrita no texto — alguém que chegou procurando respostas, mas ainda sem saber formular totalmente suas perguntas.
Do lado de fora da porta aberta, vê-se a rua estreita da cidade e um ônibus passando rapidamente, criando um contraste simbólico muito bonito: o mundo correndo lá fora enquanto, dentro daquela sala, tudo parece respirar devagar.
Na parede, pequenos quadros com palavras como “Escuta”, “Memória”, “Silêncio” e “Humanidade” ajudam a reforçar a identidade poética da série sem roubar a naturalidade da cena.
O clima emocional da imagem é de acolhimento diante da incerteza.
Não existe dramaticidade exagerada. O que a imagem transmite é algo mais humano e íntimo: a sensação de que, às vezes, seguir em frente começa apenas quando alguém finalmente encontra um lugar onde pode falar sem medo.
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