A dona Zizi também te benzeu?

O Cego que Coleciona Histórias — 17º Encontro


A paineira da praça da fonte continuava espalhando sombra sobre o banco de madeira gasto pelo tempo. O sino da igreja tinha acabado de bater três horas.


O Cego estava sentado ali quando ouviu passos lentos se aproximando, arrastando as chinelas.


— Sou a Zilma, disse uma voz envelhecida... O povo me conhecia como a dona Zizi benzedeira.


Ela se sentou ao lado dele. O banco respondeu com um rangido comprido.


Por alguns instantes, ficaram ouvindo o vento mexer nas folhas.


— Ainda benze? Perguntou o Cego.


— Ainda.


A resposta veio rápida.


Depois demorou.


— Mas quase ninguém aparece mais.


Zizi mexeu em alguma coisa dentro da bolsa.


— Carrego isso comigo há mais de quarenta anos.


Ela colocou um pequeno caderno nas mãos do Cego.


As páginas estavam gastas nas bordas.


— O que tem aqui? perguntou ele.


— Nome de gente.


Ela deu uma pausa.


— Criança com susto. Olho gordo. Bico de papagaio. Quebranto. espinhela caída. Também fiz muitos partos.


O vento virou algumas páginas sozinho.


— Curou muita gente?


Dona Zizi soltou uma risada curta.


— Metade da cidade diz que sim.


O vendedor de algodão doce passou assobiando.


— E a outra metade?


— Nem lembra que eu existo.


O silêncio ficou sentado entre os dois.


Depois ela falou mais baixo.


— Ontem passei em frente à Santa Casa. Um médico que nasceu pelas minhas mãos, nem me reconheceu.


O Cego passou os dedos pela capa áspera do caderno.


— E isso doeu?


Ela demorou para responder.


— Não por ele esquecer.


Nova pausa.


— Foi perceber que eu ainda queria ser lembrada.


Uma folha seca caiu da paineira e pousou perto dos seus pés.


Ninguém disse nada.


Então Dona Zizi guardou o caderno na bolsa, levantou devagar e seguiu seu caminho.


O Cego permaneceu ouvindo seus passos até desaparecerem na distância.

Porque às vezes a dor não está no esquecimento dos outros, mas na descoberta de que ainda desejamos ser lembrados.



Descrição da Imagem: 

A cena acontece em uma praça tranquila do interior, iluminada pela luz suave do fim da tarde.


Sob uma grande árvore, o Cego está sentado em um banco de madeira gasto pelo tempo. Usa boina marrom, óculos escuros, camiseta azul, calça clara de algodão cru e sandálias de couro. Em uma das mãos segura seu cajado de madeira. Sua postura transmite calma e atenção.


Ao seu lado está Dona Zizi, uma senhora de cabelos grisalhos presos para trás e vestido simples. Em suas mãos, ela entrega ao Cego um pequeno caderno antigo, de capa desgastada pelo uso.


Ao fundo aparecem a igreja da cidade e a fonte da praça, reforçando o ambiente típico do interior paulista. Mais adiante, um vendedor de algodão-doce atravessa a cena, remetendo discretamente à narrativa.


O banco envelhecido, o chão de pedras e a luz dourada completam uma atmosfera de memória e silêncio.


A imagem retrata um encontro simples entre duas pessoas que compartilham lembranças, histórias e a necessidade humana de ser lembrado.


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