O Cego que Coleciona Histórias — 16º Encontro

 Já brigou por um posicionamento e perdeu alguém?


O bar do Santana estava naquela hora da tarde em que as pessoas passavam por lá para saberem os comentários da cidade. O cheiro de torresmo frito chegava antes de qualquer voz.


Foi o Santana que chamou o Cego...


— Senta aqui, Cego. Tem um sujeito precisando mais de conversa do que de cerveja.


Ouviu a cadeira arrastar.


— Sou o Gilberto, disse a voz ao lado do Cego. 


Apertou a mão dele.


Ela chegou firme. Mas voltou devagar.


— Briguei com meu genro no grupo da família.


Fez barulho ao pegar o copo.


Colocou de volta na mesa sem beber.


— Política.


A palavra caiu pesada entre eles.


Do outro lado do balcão, alguém pediu uma dose.


Gilberto continuou:


— Falei coisa que não devia. Saí do grupo. Ele também.


O barulho dos dedos dele batendo no tampo da mesa parecia procurar alguma coisa.


— E agora?


— Agora nada.


Ficaram em silêncio.


Então o Cego ouviu o som de folhas de jornal.


— Tô com isso levando pra cá e pra lá faz três dias.


— Descobri que o político que eu defendia mentiu.


Não levantou a voz.


Nem parecia bravo.


Parecia desiludido.


Lá fora, uma motocicleta atravessou a rua deixando um ronco curto no ar.


— Sabe o que mais dói? — perguntou.


O Cego não respondeu.


— Não é a mentira do político.


Bateu o copo com força na mesa.


— É lembrar das coisas que eu falei para o pai das minhas netas. Um cara que eu amo.


Alguém derrubou uma tampa metálica perto da cozinha.


— Ainda não sei como voltar naquele grupo.


O Cego fez cara de surpresa e depois de dar um gole, disse:

— Às vezes, a gente demora para descobrir quem mentiu.


Gilberto respirou fundo.


Esperou.


Mas o Cego não disse mais nada. Apenas se despediu dizendo ter um compromisso.


Quando saiu, ouviu o jornal sendo folheado outra vez por Gilberto.

Como se, antes de procurar a família, ele precisasse conversar mais um pouco com a própria verdade.


Descrição da imagem:

Estamos dentro de um bar simples do interior paulista, provavelmente no fim da tarde. A luz dourada do sol entra pela porta aberta e pelas janelas, criando uma atmosfera quente, acolhedora e nostálgica.  


À esquerda está o Cego, homem forte e alto, usando boina marrom, óculos escuros, camiseta azul de cor sólida, calça clara de algodão e sandálias de couro. O cajado de madeira repousa entre suas pernas, sustentado por sua mão. Sua postura transmite calma absoluta. Sentado, levemente inclinado para frente, parece alguém que escuta mais do que fala. O rosto sereno, sem tensão, demonstra atenção plena ao que ouve.  


À direita está Gilberto, diante do Cego, vestindo camisa avermelhada. Os braços e mãos se movem em gestos de explicação, como quem tenta dar sentido a uma situação difícil. Sua expressão revela preocupação e desabafo.  


Sobre a mesa repousam um copo de bebida e um jornal aberto. O jornal é central na composição, pois remete ao texto em que Gilberto confessa carregar aquele exemplar há três dias, depois de descobrir a mentira do político que defendia.  


O ambiente do bar é rico em detalhes: mesas e cadeiras de madeira desgastadas, placas antigas nas paredes, garrafas atrás do balcão. Tudo transmite simplicidade e humanidade, típicas de uma cidade pequena.  


Ao fundo, pela porta aberta, vê-se a rua: árvores grandes, calçamento antigo, motocicletas estacionadas e, ao longe, uma igreja branca. Esse detalhe acrescenta profundidade e reforça a ideia de reflexão presente no episódio.  


O contraste entre os dois homens é o que mais chama atenção. Gilberto inquieto, carregando um conflito; o Cego imóvel, firme e silencioso. Visualmente, a cena traduz o que o texto sugere: não é uma conversa sobre política, mas sobre arrependimento.  


A cena transmite a sensação de que Gilberto está tentando encontrar o caminho de volta para alguém que ama, enquanto o Cego oferece presença e escuta amiga.


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