O Cego que Coleciona Histórias — 15º Encontro
Você ganhou o mundo. E a si mesmo?
A praça Dom Bosco, em Tupã, respirava devagar naquela tarde.
O sino da igreja acabara de tocar. Crianças cruzavam o calçamento correndo atrás de uma bola. Ao longe, um carrinho de sorvetes espalhava seu tilintar metálico pelo caminho.
O cajado tocou o chão. Toc. Toc. Toc.
O Cego caminhou até um dos bancos da praça.
Ali, alguém suspirou antes de falar.
— Meu nome é Cléo. Estou aqui pensando na vida.
A voz carregava um cansaço que não vinha do corpo.
O Cego sentou-se ao lado dela. Durante alguns instantes, ouviram apenas os pardais nas árvores.
— E encontrou o que ?
Cléo soltou uma risada breve.
— Encontrei tudo.
O silêncio que veio depois pareceu maior que a resposta.
— Casa boa. Carro. Viagens. Cargo importante. O sucesso que eu sonhava quando era jovem.
Enquanto falava, girava algo entre os dedos.
O Cego ouviu o leve atrito das contas.
— Minha avó me deu isso quando fiz 15 anos.
O terço continuava deslizando entre seus dedos.
— Estranho... nunca tenho tempo para rezar. Mas sempre levei ele comigo.
— Talvez algumas coisas esperem mais do que cobrem, disse o Cego.
Cléo demorou para responder.
— Sabe o que mais me assusta? Não foi perder dinheiro. Nem oportunidades. Foi perceber que, enquanto eu ganhava tantas coisas, outras foram ficando para trás.
— E você sabe o que ficou para trás?
Ela passou o terço para outra mão. Mas não respondeu.
O sino da igreja voltou a tocar.
Cléo permaneceu imóvel por alguns segundos, como quem tenta reconhecer algo.
— Obrigada por me ouvir.
— Eu também gosto de encontrar quem ainda está procurando, falou o Cego.
Cléo deu alguns passos.
Então parou.
O som das contas voltou a correr entre seus dedos.
E, antes de seguir caminho, ficou um instante escutando os sinos.
Às vezes, a gente passa a vida inteira correndo atrás do que perdeu.
Até descobrir que era a própria voz que estava ficando para trás.
A imagem mostra uma praça de cidade do interior em uma tarde iluminada pelo sol dourado do fim do dia. A luz é quente e suave, criando uma atmosfera de tranquilidade e nostalgia.
No centro da cena há um banco de madeira escura. Sentado à esquerda está o Cego da série. Ele aparenta cerca de 50 anos, tem porte forte e postura serena. Usa uma boina marrom, óculos escuros, camiseta azul de manga curta, calça clara de algodão cru e sandálias de couro marrom. Em uma das mãos segura um cajado de madeira comprido, marcado pelo uso, apoiado verticalmente no chão ao lado do banco.
Seu rosto está voltado para uma mulher sentada ao seu lado. Ela está ligeiramente inclinada em sua direção, como quem conversa sobre algo importante. Usa calça jeans e uma blusa verde-oliva. Nas mãos, segura um terço, cujas contas brilham discretamente sob a luz do sol. É possível perceber que ela parece reflexiva, talvez compartilhando uma preocupação ou uma lembrança.
Ao fundo surge uma igreja de arquitetura simples, típica de cidades do interior paulista. Sua torre se destaca contra o céu claro, e no topo há uma cruz. A igreja está banhada pela mesma luz dourada que ilumina toda a praça.
Espalhadas pela praça, algumas crianças brincam correndo atrás de uma bola. À esquerda da imagem aparece um carrinho de sorvetes, reforçando a sensação de uma tarde comum e tranquila. Grandes árvores cercam o local, formando sombras suaves sobre o calçamento.
O que mais chama atenção não é exatamente a paisagem, mas o clima emocional da cena. Parece um instante de escuta profunda. O Cego transmite acolhimento silencioso, enquanto a mulher parece estar dividindo algo que guardou por muito tempo. Há movimento ao redor — crianças, praça, cidade — mas entre os dois existe uma espécie de silêncio tranquilo, como se o mundo tivesse diminuído o ritmo por alguns minutos.
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