O Cego que Coleciona Histórias: 12º Encontro

O que realmente fica de nós quando o tempo leva quase tudo?


O avô Antônio e as Figurinhas da Copa


A manhã ainda aprendia a ficar clara. Na cozinha, a chaleira chiava antes mesmo do café espalhar cheiro pela casa. Pela janela entravam o vento e o canto de um bem-te-vi.


O cego estava perto da porta, os dedos no cajado, ouvindo o mundo acordar, quando percebeu um ruído diferente.


Plástico sendo ajeitado.


Depois outro.


Os passos adentraram o portão.


— Trouxe uma coisa pra te mostrar, disse Antônio.


O Cego reconheceu a voz e sorriu. Antônio tinha jeito de avô antigo. Falava baixo e sempre carregava miudezas no bolso. Naquele dia, porém, o som parecia folha grossa deslizando.


— Álbum? perguntou o Cego.


Antônio riu.

— Como você sabe?

— Figurinha tem um barulho próprio.


O velho abriu o álbum sobre a mesa. As páginas viravam com cuidado de quem trata papel como memória.


— A de 94 eu não completei... A de 2002 fechei inteira.


Disse que começou a colecionar já velho. Não pelos jogadores. Pelos netos.


— Eles crescem rápido demais. A figurinha não.


Cada plástico levantado fazia um ruído fino. Antônio contou que anotava atrás das páginas onde conseguiu as raras.


“Troca na praça.”

“Ganhei do neto mais novo.”


O cego escutava em silêncio. As figurinhas eram uma maneira de segurar o tempo.


— Tem jogador que eu nem lembro mais, falou Antônio.

— Mas lembro quem tava comigo quando colei.


Lá fora, uma moto passou longe. Dentro da casa, o álbum continuava aberto sobre a mesa.


O Cego imaginou dedos amarelados de cola ajeitando cada figurinha. Talvez algumas pessoas organizassem assim seus álbuns...


Depois de um tempo, Antônio fechou o álbum.


— Quando eu morrer, isso fica pros meninos. Talvez nem liguem. Mas acho que vão lembrar que eu sentei no chão com eles.


E os dois ficaram ali, em silêncio, escutando uma casa onde as memórias ainda tinham lugar pra sentar.





Descrição da imagem: 

A mesa de madeira antiga possui marcas de uso, uma toalha rendada pequena e utensílios metálicos envelhecidos, como chaleira e caneca, reforçando o clima doméstico e afetivo.


Ao fundo, a cozinha escura e quente guarda detalhes sutis: um fogão antigo, potes simples, sombras suaves e um calendário da Copa de 1994 pendurado na parede, funcionando como elo visual entre memória e tempo.


Pela porta aberta entra a luz dourada da manhã. Lá fora, vê-se uma rua tranquila de cidade pequena, árvores antigas e uma igreja ao fundo. Um pássaro cruza o céu claro, sugerindo o bem-te-vi mencionado no texto.


A composição inteira transmite silêncio, escuta e herança afetiva. Não é uma cena sobre futebol. É uma cena sobre aquilo que permanece quando quase tudo passa: os momentos compartilhados.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

🇧🇷 Um país que tropeça na própria calçada não pode sonhar com grandes passos 🕳️👣💔

Palavra do dia - SILÊNCIO: O Amor Eterno de Dona Lourdes ❤️