O Cego que Coleciona Histórias: 3º Encontro

Quando foi que a mentira começou a pesar mais que a própria vida?


O fim da tarde pousava devagar sobre as casas da rua.

O radinho de pilha tocava sertanejo em cima da mesa.

De vez em quando uma moto passava levantando poeira fina do asfalto gasto.


Na varanda, o Cego estava sentado na cadeira de madeira.

O cajado atravessado entre as mãos.


O portão rangiu.


Passos demorados subiram os três degraus da varanda.


O homem limpou a garganta antes de falar.


— Sou o Divino… seu vizinho da outra esquina. Acho que o senhor já deve ter ouvido falar de mim por aí.


O Cego inclinou levemente a cabeça.

— Pode chegar.


A voz do homem tinha aquele esforço de quem está acostumado a falar alto… mas agora parecia menor.


Um molho de chaves girava nervoso dentro da mão dele.


— O povo diz que eu conto vantagem demais.


O vento mexeu nas folhas da árvore defronte da casa.


Divino soltou um riso curto.


— Eu dizia que tinha negócio em Marília… caminhão rodando… dinheiro entrando.


O molho de chaves parou de girar.


Silêncio.


Lá longe um cachorro latiu duas vezes.


— Era mentira.


A palavra caiu pesada na varanda.


Ele respirou fundo.


— Comecei pequeno… só pra não parecer fracassado.


A cadeira do Cego rangeu levemente quando ele mudou o peso do corpo.


Divino continuou, quase falando para o chão.


— Depois a mentira foi crescendo… e eu fui tendo que sustentar ela.


As chaves escaparam da mão dele e caíram no piso de cimento.


O som seco ficou parado no ar.


O Cego apenas perguntou, calmo:


— E hoje?


Divino demorou a responder.


O radinho distante parou de tocar.


— Hoje… ninguém acredita mais em nada que eu digo.


Ele se abaixou, tateou o chão e pegou as chaves.


Ficou um tempo ali na varanda sem falar.


Antes de descer os degraus, disse baixo:


— Engraçado… a única vez que falei a verdade… foi a que ninguém escutou.


O Cego continuou sentado.


O cajado quieto entre as mãos.


E a rua ficou escutando também.

Descrição da imagem:


O Protagonista (O Cego):

Está sentado à direita da imagem, em uma cadeira de madeira simples na varanda de uma casa de vila. Sua figura é imponente e serena: um homem de cerca de 50 anos, porte atlético e alto, com o rosto barbeado e uma expressão de paz. O cego veste uma camiseta de cor vermelho-queimado, calça de algodão cru (um tom de bege claro) e sandálias de couro marrom que mostram as marcas do tempo. Sobre a cabeça, uma boina marrom e, nos olhos, óculos escuros clássicos. Suas mãos repousam sobre o cajado de madeira, que está atravessado no seu colo. Ele não olha para o vizinho, mas sua cabeça está levemente inclinada, indicando que sua visão é o som e o sentimento.


O Vizinho (Divino):

À sua esquerda, posicionado um pouco à frente, está o Divino. Ele é um homem mais baixo, com aparência comum, vestindo uma camisa xadrez de tons sóbrios e calça escura. O momento capturado é de grande vulnerabilidade: ele está agachado no piso de cimento da varanda, com um dos joelhos quase tocando o chão. Ele estende a mão para apanhar o molho de chaves de metal que acabou de cair. O rosto dele está voltado para baixo, carregado de cansaço e da vergonha de quem finalmente soltou o peso da mentira.


O Cenário:

A cena acontece em uma varanda coberta, com pilares de madeira que emolduram a visão da rua. Ao fundo, vê-se uma típica rua de cidade do interior paulista sob a luz dourada e suave do final de tarde. Há casas simples e coloridas (tons de azul e verde água), cercas de madeira baixa e árvores antigas que projetam sombras longas no asfalto. No horizonte, a silhueta de uma pequena torre de igreja reforça o clima de comunidade e o tempo desacelerado.


Clima Visual:

É uma imagem que fala de acolhimento e do peso que se sente quando a verdade finalmente aparece.


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