Que tipo de noite faz alguém parar no portão de um estranho?
O Cego que Coleciona Histórias: 4º Encontro
A varanda cheirava a chuvas de Março. O balanço rangia devagar, marcando o tempo com o ventilador de teto que girava preguiçoso.
Passos na calçada pararam no portão da casa do Cego.
— Sou a Tiana. A que mudou pra casa da frente.
A voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante de um carro subindo a ladeira.
— Senta aqui.
O tecido da cadeira esticou quando ela se acomodou. Um isqueiro clicou. Fumaça quente passou perto do rosto dele.
— Eu vi o senhor aqui ontem. Sozinho. Pensei que talvez… o senhor entendesse de noites que pesam.
Silêncio. Só o balanço e o cigarro crepitando.
— Noite pesada tem cheiro diferente?
Ela riu curto, seco.
— Tem. Cheiro de coisa que a gente jurou que deixou pra trás. E o corpo lembra antes.
Ele deixou o balanço marcar mais dois compassos.
— Faz quanto tempo?
— Três anos, sete meses… e uns dias. — A voz falhou no final. — Mas hoje o entregador de gás tinha o mesmo cheiro que os antigos “amigos” tinham. E eu fiquei olhando pro armário como se ele fosse abrir sozinho.
O vento mexeu na figueira.
— E o que o armário disse?
— Nada. Ficou lá. Fechado. Igual eu.
Ele estendeu a mão até a mesinha. Pegou um copo d’água na moringa e ofereceu.
— Toma. Às vezes a garganta aperta tanto que esquece de engolir.
Os dedos dela roçaram os dele. Ficaram um instante.
— Eu não quero voltar a usar. Mas sinto a vontade subindo pela nuca. Igual febre.
— E quando chega na nuca?
— Eu choro. No banheiro. Com a torneira aberta.
Ele balançou a cadeira de leve.
— Chorar com água correndo é um jeito de conversar consigo mesmo.
Ela apagou o cigarro no corrimão. Levantou.
— Obrigada por não perguntar se eu vou conseguir.
Ele sorriu só com a boca.
— Eu não pergunto o que já tá respondendo sozinho.
O portão rangeu. Passos se afastaram na calçada.
O balanço continuou sozinho por alguns segundos.
Depois parou.

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