O Cego que Coleciona Histórias: 2º Encontro

Quanto custa descobrir que a própria esperança também pode enganar a gente?

Era meio de tarde quando o ferro do portão do Cego tremeu devagar. Não foi batida forte. Foi como quem chama sem querer fazer barulho demais.

Na rua, uma moto passou levantando poeira seca. Ao longe, um vendedor de pamonha gritou seu pregão arrastado.

Do lado de fora, alguém respirava fundo antes de falar.

— Sou a Laura… moro ali na rua de baixo… quase em frente da venda do seu Anselmo.

O Cego abriu o portão.

Ela entrou sem pedir licença. O chinelo raspava no chão como quem ainda não decidiu se fica ou volta.

Por alguns segundos só se ouviu o pano da bolsa sendo apertado.

— O senhor já ouviu falar no golpe do bilhete premiado?

O Cego disse: Já ouvi falar....

A mulher soltou um riso curto. Riso que parecia pedir desculpa.

— Pois é… eu ouvi também… mas achei que comigo não ia acontecer.

Um caminhão passou na avenida próxima. O cajado vibrou forte nas mãos do cego.

Toc-Toc-Toc.

Ela continuou:
— O homem chorava… dizia que não sabia sacar o prêmio… que precisava de ajuda… que era gente simples…

A bolsa rangeu de novo.

— Eu saquei umas economias… só pra ajudar ele… e ganhar uma parte que me prometeu dar como recompensa.

Silêncio.

Depois ela falou mais baixo:

— Sabe o que mais dói?

O Cego inclinou levemente a cabeça.

— Não foi perder o dinheiro… foi perceber que eu quis acreditar rápido demais.

Um cachorro latiu no quintal vizinho.

A mulher remexeu na bolsa e tirou um papel amassado.

— Guardei o tal bilhete… não sei por quê.

O Cego estendeu a mão.

O papel passou de uma mão para outra.

Ele sentiu a textura gasta da dobra.

E perguntou, calmo:

— A senhora guarda isso pra lembrar do homem…

…ou pra não esquecer da senhora que acreditou nele?



Descrição da imagem:

Imagine uma cena de fim de tarde quente no interior, com aquela luz dourada que deixa tudo mais suave e nostálgico.

A cena acontece numa rua simples de Tupã, São Paulo.  
O chão parece de terra batida ou de asfalto claro. Ao fundo surgem casas baixas antigas, árvores e, mais distante, uma igreja branca com torre, levemente desfocada pela profundidade da imagem.

A luz do sol está baixa, iluminando tudo de lado e criando sombras longas e suaves. Isso transmite uma sensação de tempo lento, quase silencioso.

À esquerda da imagem há um portão de ferro antigo, aberto.  
O Cego está sentado próximo a esse portão.  

Ele é um homem forte, de aparência madura, com postura tranquila.  
Usa boina marrom, óculos escuros e veste camiseta amarela queimada.  
Seu rosto não tem barba e mostra uma expressão serena, com leve sorriso.  

Encostado ao lado do corpo dele está o cajado de madeira, escuro e gasto pelo tempo.  

O gesto mais importante da cena está nas mãos.  
Ele segura um pequeno papel amassado entre os dedos.  
Os dedos passam devagar pelo papel, como quem tenta compreender a história daquele objeto pelo toque.  

A cabeça está ligeiramente inclinada, como quem escuta.  

Do lado direito está Laura.  
Cabelo preso para trás, camisa azul simples, rosto cansado e sério, expressão de vergonha misturada com tristeza.  

Ela segura uma bolsa marrom contra o peito, apertando com os braços como se buscasse algum tipo de proteção.  
O corpo está ligeiramente inclinado em direção ao Cego, mostrando que está envolvida na conversa.  

O instante da imagem é exatamente o momento em que o bilhete passa para as mãos do Cego.  
Ele toca o papel.  
Ela observa.  
Há silêncio entre os dois.  

A imagem transmite muito essa sensação de pausa, reflexão, uma verdade difícil sendo encarada.  

A cena revela acolhimento, humanidade, vulnerabilidade e escuta profunda.  

Parece um pequeno acontecimento cotidiano, mas cheio de significado.

 

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