O cego que coleciona histórias: O primeiro encontro

Manhã de quarta-feira sossegada em Tupã. O cego estava sentado em sua poltrona ouvindo os sons da cidade quando um vento veio forte. Logo depois, a campainha tocou. Ele se levantou para atender e, ao perguntar quem era, ouviu apenas toc-toc-toc, madeira batendo no ferro do portão.


Não havia passos se afastando. Nem respiração do outro lado. Só o vento mexendo nas folhas da varanda, como se tivesse pressa de ir embora depois da entrega feita.


Abriu.


— Quem está aí?


Silêncio.


A mão buscou o vazio até encontrar algo encostado na grade. Madeira. Alta. Fria. Passou os dedos com cuidado, como quem lê um rosto desconhecido. Sentiu marcas profundas, rachaduras, partes lisas de tanto uso. Aquilo parecia ter andado muito até chegar aqui, pensou o cego


Não havia ninguém.


Só o cajado.


Levou-o para dentro mais por educação que curiosidade, como se recolhesse algo esquecido por um visitante distraído. Encostou-o na parede e o dia seguiu comum demais para carregar mistério: café morno, o rádio distante do vizinho, uma panela batendo em alguma cozinha próxima.


Mas algo havia mudado...


Naquela tarde, sentado na varanda, pegou o cajado.  Não pensou em nada especial. Apenas ficou com ele entre as mãos.


Um homem parou na frente da casa para comentar do calor. Conversa rápida, dessas que acabam logo. Só que não acabou. Falou do trabalho, depois da esposa, depois de uma saudade antiga que parecia pesada demais.


O cego percebeu pausas escondidas, respirações presas, palavras chegando antes da coragem. Não respondeu quase nada. Apenas escutou.


Quando o homem parou de falar, aliviado sem entender por quê, disse sorrindo:


— Engraçado… parece que você escuta até aquilo que eu não falei.


O vento passou leve outra vez.


O cajado tocou o chão.


Toc-Toc-Toc.


Ali o cego compreendeu que algumas histórias não procuram respostas. Procuram abrigo. E, sem perceber quando começou, ele tinha aprendido a oferecer silêncio e ouvir.


Descrição da imagem:

A imagem mostra o Cego parado diante do portão de sua casa, numa manhã iluminada por uma luz dourada e suave, típica de interior paulista. A claridade não é forte; ela parece envolver tudo com um calor tranquilo, como se o dia estivesse apenas começando.

Ele é um homem alto e forte, de postura firme, vestindo uma boina marrom que cobre completamente o cabelo. Usa óculos escuros, o rosto está limpo, sem barba, e sua expressão é serena. Há um leve sorriso contido, quase imperceptível, mais sentido do que visto.

A camiseta é vermelha, de tom vivo, mas natural. A calça é de algodão cru, clara, e as sandálias de couro marrom mostram desgaste do uso — como alguém que caminha bastante. Na mão direita, ele segura sua própria bengala, apoiado no chão. Com a outra mão, toca o novo cajado que está encostado na grade do portão.

O portão é de ferro escuro, com barras verticais e desenho simples. Está parcialmente aberto. O cajado recém-chegado é alto, de madeira antiga, cheio de marcas, rachaduras e texturas irregulares. Parece pesado e carregado de história. A mão dele repousa sobre a parte superior do cajado como quem lê uma superfície com os dedos.

Ao fundo, a rua é tranquila. Casas baixas, muros simples, árvores antigas projetando sombra suave. É possível perceber a silhueta de uma igreja distante, com torre fina apontando para o céu. Há vasos de plantas na varanda, folhas levemente agitadas, sugerindo que o vento ainda passa por ali.

O clima geral é de silêncio. Não há movimento humano visível. A cena transmite aquele instante suspenso entre o mistério e a descoberta — como se o mundo tivesse parado exatamente no momento em que o cajado foi encontrado.


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