Até onde vai o preço de dizer não?
O Cego que Coleciona Histórias: 6º Encontro
A sombra da árvore na praça da matriz de São Pedro, segurava o calor da tarde como conversa antiga. O ar parecia suspenso em Tupã- SP.
Um motoqueiro passou acelerando, o escapamento estourado rasgando o silêncio da rua.
Toc-Toc-Toc.
A ponta do cajado encontrou a calçada até parar junto ao banco já gasto pelo uso.
O Cego percebeu passos firmes se aproximando.
A respiração vinha pesada. Não era só cansaço.
— Boa tarde… meu nome é Durval. Sou fiscal da prefeitura.
Ele limpou a garganta, como quem organiza o que ainda está confuso por dentro.
— Posso te contar algo muito sério que aconteceu comigo?
O Cego inclinou levemente a cabeça.
— Ontem fechei uma lanchonete na avenida Tamoios. Falta de higiene.
Um carro passou com o som grave vibrando o ar ao redor.
— O dono me chamou no canto… disse que dava um jeito.
Durval parece ter chutado um pedregulho.
— Jeito quer dizer dinheiro.
O vento mexeu as folhas do galho acima deles.
— Eu disse não.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era peso.
— Hoje cedo ele apareceu no meu portão.
A mão de Durval roçou o banco, buscando firmeza.
— Disse que gente teimosa costuma sofrer acidente.
Do outro lado da praça, uma bicicleta passou rangendo a corrente.
O Cego ouviu a pausa que se abriu.
— O problema, é que eu tenho filhos.
O cajado tocou o chão.
Toc.
— O senhor dormiu esta noite?
Durval deu Um riso , sem humor.
— Quase nada.
O vento trouxe o canto de um sabiá.
O Cego passou a mão devagar pela madeira do cajado.
— Engraçado… — disse ele. — Tem gente que perde o sono quando aceita.
o fiscal ficou quieto.
As folhas se moveram acima.
Talvez vento.
Talvez outra coisa.
Os passos demoraram a ir embora.
Como se cada passo ainda precisasse escolher antes de tocar o chão.
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