Até onde vai o preço de dizer não?
A sombra da árvore na praça da matriz de São Pedro, segurava o calor da tarde como conversa antiga. O ar parecia suspenso em Tupã- SP.
Um motoqueiro passou acelerando, o escapamento estourado rasgando o silêncio da rua.
Toc-Toc-Toc.
A ponta do cajado encontrou a calçada até parar junto ao banco já gasto pelo uso.
O Cego percebeu passos firmes se aproximando.
A respiração vinha pesada. Não era só cansaço.
— Boa tarde… meu nome é Durval. Sou fiscal da prefeitura.
Ele limpou a garganta, como quem organiza o que ainda está confuso por dentro.
— Posso te contar algo muito sério que aconteceu comigo?
O Cego inclinou levemente a cabeça.
— Ontem fechei uma lanchonete na avenida Tamoios. Falta de higiene.
Um carro passou com o som grave vibrando o ar ao redor.
— O dono me chamou no canto… disse que dava um jeito.
Durval parece ter chutado um pedregulho.
— Jeito quer dizer dinheiro.
O vento mexeu as folhas do galho acima deles.
— Eu disse não.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era peso.
— Hoje cedo ele apareceu no meu portão.
A mão de Durval roçou o banco, buscando firmeza.
— Disse que gente teimosa costuma sofrer acidente.
Do outro lado da praça, uma bicicleta passou rangendo a corrente.
O Cego ouviu a pausa que se abriu.
— O problema, é que eu tenho filhos.
O cajado tocou o chão.
Toc.
— O senhor dormiu esta noite?
Durval deu Um riso , sem humor.
— Quase nada.
O vento trouxe o canto de um sabiá.
O Cego passou a mão devagar pela madeira do cajado.
— Engraçado… — disse ele. — Tem gente que perde o sono quando aceita.
o fiscal ficou quieto.
As folhas se moveram acima.
Talvez vento.
Talvez outra coisa.
Os passos demoraram a ir embora.
Como se cada passo ainda precisasse escolher antes de tocar o chão.
Descrição da imagem:
A cena acontece no fim de tarde, quando a luz já não queima — ela acaricia.
O sol atravessa as folhas de uma árvore antiga, projetando sombras irregulares no chão de pedra e no banco de madeira já gasto pelo tempo. A praça respira devagar. Tudo parece suspenso, como se o mundo tivesse diminuído o ritmo só para aquele encontro existir.
No centro da imagem, dois homens dividem o mesmo banco — mas não o mesmo estado de espírito.
À esquerda, está o Cego.
Alto, postura firme, corpo tranquilo. Ele veste uma camiseta verde em tom sóbrio, calça clara e sandálias de couro já moldadas pelo uso. A boina marrom cobre a cabeça, e os óculos escuros escondem os olhos — mas não escondem a presença.
Na mão direita, o cajado repousa com naturalidade, como extensão do corpo.
A cabeça levemente inclinada na direção do outro homem diz tudo:
ele não está apenas ouvindo — está interpretando.
Há serenidade nele. Não ausência de conflito — mas domínio sobre ele.
À direita, o contraste.
Durval está curvado.
Os cotovelos apoiados nas pernas, as mãos entrelaçadas, o olhar perdido no chão. O corpo denuncia o que a boca ainda tenta organizar: peso, medo, dúvida. A camisa clara está levemente amassada, como se o dia tivesse sido longo demais.
Ele não encara o Cego.
E isso é essencial.
Porque o conflito dele não está no outro — está dentro.
Ao fundo, a cidade segue, mas em segundo plano:
Uma igreja com torre , observa a cena como testemunha silenciosa. Uma bicicleta passa, quase sem fazer barulho. Um homem distante caminha sem pressa. Há até uma placa indicando “Tupã - SP”, como quem ancora a história no mundo real.
Mas nada disso compete com o banco.
Tudo converge para aquele ponto.
A luz, inclusive, parece escolher lados:
Ela toca suavemente o Cego — constante, estável.
Já em Durval, ela cria contrastes mais duros, como se ainda estivesse indecisa sobre onde pousar.
E no meio disso tudo… o silêncio.
Não um silêncio vazio.
Mas aquele silêncio que vem depois de uma escolha difícil ainda não feita.
Comentários