O cego que coleciona histórias: 5º Encontro
Já sentiu que não encontrou algo — mas foi encontrado?
Certa vez, Raul Seixas cantou que teve um sonho de sonhador... E foi numa vibração parecida que o Cego entrou em um transe profundo, sendo apresentado à história do cajado.
O cajado não foi fabricado.
Foi tecido pelo tempo.
Dizem que nasceu de uma árvore crescida numa encruzilhada antiga, lugar onde viajantes descansavam antes de escolher caminhos. Ali ficaram despedidas, promessas e segredos soprados ao vento. A madeira se desenvolveu escutando tudo isso e muito mais.
Antes de chegar na casa do cego, em Tupã, passou por outras mãos...
Uma benzedeira do cerrado.
Um monge baiano.
Uma contadora de causos à beira do rio Amazonas.
E um ancião que dizia interpretar o silêncio nos pampas.
Nunca procurou força.
Procurava repouso.
E naquele sonho o cego teve algo revelador...
Toc-Toc-Toc.
O cajado que, no dia anterior, havia sido deixado no portão de sua casa, fora trazido pelo Vento do Encontro.
Não foi acaso.
Foi escolha!
Ainda atordoado, o Cego o pegou com cuidado. Apoiou-o nos joelhos e deixou os dedos caminharem pelas ranhuras da madeira.
Não leu.
Ouviu.
Uma parte áspera trouxe cheiro de terra molhada e rezas baixas. Outra, lisa, guardava o calor de mãos que caminharam muito antes dele nascer. Cada marca parecia respirar.
Não era objeto.
Era memória.
Então percebeu algo estranho...
A madeira vibrava conforme passos passavam pela rua. Algumas presenças a tornavam leve. Outras pesavam como nuvens antes da tempestade.
Era uma bússola.
Não de caminhos.
De gente.
De almas.
Naquele instante entendeu que sua cegueira não era falta.
Era preparo.
O cajado guardava histórias antigas.
O cego guardaria as próximas.
O pacto começou ali.
Lá fora, o vento voltou a atravessar a rua.
Dessa vez não procurava destino.
Parecia apenas esperar alguém chegar.
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