O Cego que coleciona histórias: 8º Encontro

Por que alguém que parece ter todas as respostas ainda carrega tanta raiva no peito?


O sol batia forte na Pedra, na esquina do banco em frente à padaria. O cheiro de pão quente saía da porta aberta e se misturava com o odor acre da gasolina dos carros. Alguém batia o pé no chão, um ritmo seco e nervoso, como quem espera briga.


O Cego parou. O cajado tocou o meio-fio, toc-toc-toc. Sentiu o ar pesado, o cheiro de suor ácido e o som do tecido sintético de uma camisa sendo repuxado no peito.


— Tô aqui, seu Cego. Sou o Jorjão, o corretor. Todo mundo me conhece...


A voz era grossa e carregava uma urgência que não pedia licença.


— Chegou tem que me ouvir...

—Vacina? Tomo nem amarrado. Mulher minha não sai da cidade pra estudar, não. Em casa, quem dá a última palavra sou eu. Sempre foi assim. Agora, tão falando que eu tenho que me cuidar.  vou comprar aquela canetinha pra emagrecer pela internet. Barato. Sem depender dessa máfia aí de médicos e laboratórios.


Ele riu curto. A mão amassava um folheto entre os dedos grossos.


— Hoje em dia tá tudo errado… falta homem que não se dobra.


Parou. Tirou do bolso um isqueiro velho. Acendeu e apagou. O clique metálico cortava o ar como um gatilho. Click. Click.


— Meu pai usava um igualzinho. Morreu falando a mesma coisa… “não se dobra, filho”. Morreu magro… bravo… e sozinho.


O isqueiro falhou na última tentativa. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a fala.


O Cego apenas inclinou a cabeça, sentindo o leve tremor na mão de Jorjão que não conseguia esconder.


— Vou nessa. O mundo não para.


Os passos se afastaram, pesados, como se ele carregasse o peso de três gerações em cada bota. O rádio da padaria tocava uma moda de viola antiga, daquelas que falam de ausência.


O Cego ficou ali… ouvindo o vazio que o homem deixou no lugar do barulho, se perguntando:


O que, em nós, é escolha… e o que é só repetição?


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Descrição da imagem:

Em uma rua de interior banhada pelo sol dourado do fim de tarde, a luz envolve o cenário como um abraço, criando sombras longas no asfalto. À esquerda, em primeiro plano, destaca-se o Cego. Homem alto e de postura disponível, ele inclina a cabeça, revelando que sua percepção do mundo ocorre pelos ouvidos, não pelos olhos. Veste boina marrom, óculos escuros, camiseta verde e sandálias de couro gastas. Sua mão direita segura com firmeza um cajado de madeira, que serve como extensão de seu corpo e ponto de contato com a realidade.

Atrás dele, a luz alaranjada de uma padaria sugere o cheiro de pão fresco e o movimento do cotidiano, enquanto, ao fundo, uma igreja simples repousa como uma memória silenciosa. À direita, em segundo plano, Jorjão se afasta de costas. Seus ombros pesados e passos carregados denunciam um peso interno. Ele carrega discretamente um isqueiro metálico que reflete o brilho solar.

O espaço entre os dois homens é grande. E esse espaço diz muito.

Não há confronto. Não há gesto dramático. O que existe é ausência — recente, ainda vibrando no ar.

O chão parece quente, quase tremulando ao longe, como se o calor estivesse distorcendo levemente a paisagem. Pequenas partículas de poeira flutuam na luz dourada, dando textura ao ar.

A cena inteira é silenciosa.

Mas não é um silêncio vazio.

É aquele silêncio que vem depois de algo importante ter sido dito — ou talvez, depois de algo importante não ter sido entendido.

E no centro de tudo isso, o Cego permanece.

Imóvel.

Presente.

Escutando… até o que já foi embora.


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