O Cego que coleciona histórias: 9º Encontro
Vale a pena se perder… pra não perder tudo?
O sol da manhã já tinha tomado a calçada do edifício da redação quando ela chegou. Passos rápidos. Parou. O som do papel sendo amassado na mão dela era seco, nervoso. Parecia o som de uma pele que descola.
O vento carregava cheiro de café velho com papel esquecido. Ao fundo, um locutor ainda falava, como se o mundo não soubesse parar.
Foi então que ela percebeu o Cego. Ele estava imóvel, mas o som das batidas rítmicas e lentas de seu cajado no concreto pareciam contar os segundos que ela não tinha.
Toc-toc-toc.
— Me pediram pra não publicar…
Camila, jornalista, tinha nas mãos um esquema sujo. Provas suficientes. Nomes influentes da cidade. Mas o dono do portal mandou segurar. Se publicasse, perdia o emprego. Se obedecesse, perdia a si mesma.
— Eu lutei tanto pra chegar até aqui… e agora parece que tenho que escolher entre tudo isso e quem eu sou.
O cego parou a batida do cajado. O silêncio que se seguiu pesou mais que o sol.
— O papel nas suas mãos… ele pesa mais que a sua consciência ou mais que o seu aluguel? perguntou ele, sem virar o rosto.
— Eu não sei se sou forte o suficiente pra pagar o preço.
— A verdade que você carrega agora… ela grita ou ela sussurra? Tem verdades que pedem coragem pra nascer e outras que pedem sabedoria pra esperar. Só quem se perde do caminho traçado pelos outros consegue encontrar o próprio rastro.
Camila respirou. Dessa vez, sem pressa. O tremor nas mãos cedeu ao peso da decisão.
— Talvez eu não publique hoje… mas também não vou fingir que não sei.
Os passos se afastaram decididos. A porta do edifício fechou com o som de um segredo bem guardado… por enquanto. O Cego permaneceu imóvel.
— Nem toda verdade precisa de pressa… mas nenhuma suporta ser esquecida.
O vento levou um papel vazio pela calçada. E por um instante, não parecia perda. Parecia escolha.
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