O Cego que coleciona histórias: 7º encontro
Quem cuida de quem cuida?
O banco de cimento em frente à Santa Casa era um local de espera, para alguns de alegria e para outros de tristeza.
Gente entrando e saindo, passos apressados, o barulho de uma maca, uma sirene distante que não terminava nunca. O Cego parou antes de sentar. Ouviu o tecido do uniforme roçar; alguém sentou-se sem cerimônia.
— Meu nome é Marta… técnica de enfermagem.
A voz vinha cansada antes mesmo das palavras.
— Plantão longo? — perguntou ele, encostando o cajado no banco.
— Tem plantão que não acaba quando a gente sai — ela soltou um riso curto, quase um engasgo.
Um carro passou devagar. Um choro de criança vinha da sala de espera.
— Hoje eu esqueci de dar boa noite pro meu filho. Faz três dias que só o vejo dormindo.
O som do estalar de dedos dela denunciava o nervosismo.
— Lá dentro, a gente segura a mão de quem tá indo embora. Fala que vai ficar tudo bem… mesmo sabendo que não vai.
O vento trouxe cheiro de álcool hospitalar e café requentado.
— E quem segura a sua? — perguntou o Cego, baixo.
Marta demorou.
— Ninguém.
Ela parou de estalar os dedos. A voz vacilou:
— Hoje um senhor me chamou de filha… eu fiquei com ele até o fim. Saí do quarto e não consegui entrar no próximo.
O Cego passou os dedos pela aspereza do cajado.
Toc-toc-toc.
— Às vezes, a gente aprende a cuidar sem nunca aprender a parar.
Marta respirou fundo. Pela primeira vez, devagar. Lá dentro, a maca voltou a ranger.
— Eu preciso voltar.
O Cego assentiu. Os passos se afastaram.
No rastro de Marta, não ficou o cheiro de hospital, mas o peso de uma entrega. Ele tateou o calor que ela deixara no banco, como se as mãos que cuidam de todos tivessem, por um minuto, encontrado apoio.
O Cego, não tinha remédios, mas agora guardava aquela história no peito...
as dores, quando divididas, deixam de ser fardos para se tornarem travessias.
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