Capítulo 11: No fio da história
🏍️😎🧑🦯 Série – O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado
📖 Pompéia, Quintana, Herculândia e Tupã
Matas, café, Trilhos e divisões invisíveis
Estou no trecho. A Gatuna avança pela SP-294.
O asfalto vibra sob os pneus como se guardasse memória.
Não enxergo as placas, mas reconheço o território pelo som: o vento muda, o eco se abre, o chão responde. A rodovia fala e eu escuto.
Antes da estrada, houve trilho.
Antes do trem, o café.
Antes do café, mata fechada.
E antes da mata cortada, passos indígenas que conheciam cada dobra desse chão.
Essas cidades não nasceram isoladas.
Elas se dividiram, como células de um mesmo corpo.
Pompéia vem primeiro no pensamento.
Não só como cidade, mas como estrutura.
Chão central, organizador, administrativo.
Foi chão-mãe.
Dela partiram limites, decretos, desmembramentos e cidades inteiras.
Quintana nasce desse movimento.
Primeiro lavoura, depois distrito, depois cidade.
Mudou de nome, de gestão, até firmar identidade própria.
Filha do trilho e da reorganização do território.
Herculândia também não nasceu pronta.
Mudou de nome, de lugar, de condição.
Cresceu entre matas, café e ribeirão até ganhar autonomia.
Tupã surge como outra força.
Sonhada, disputada, marcada por conflitos e mediações.
Recebeu partes, perdeu outras, cresceu.
O mapa do oeste paulista se redesenhou.
Enquanto piloto, compreendo:
essas cidades não são vizinhas por acaso.
São irmãs de papel, de ferrovia e de decisão.
Separadas no mapa, unidas por um mesmo ciclo:
mata, café, trilho, cidade, rodovia.
A Gatuna segue.
O som muda ao esticar o cabo.
Não vejo a divisa, mas sinto.
Divisa não é muro — é memória organizada.
Se hoje cruzo tudo em minutos, houve tempo de picada, negociação e espera pelo trem.
A estrada herdou o trilho.
A moto herdou o trem.
E eu herdo a escuta.
Entre o real e o imaginado, compreendo:
essas cidades se partiram para existir.
Sigo para casa.
Porque toda história tem um contexto.
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Descrição da imagem:
O cego está montado na moto, ocupando a parte direita da imagem. Seu corpo está levemente virado para trás, como se tivesse acabado de olhar por cima do ombro. O tronco ereto transmite segurança.
Ele está retratado como um homem forte, de porte grande, usando boina preta ajustada à cabeça. O cabelo castanho aparece curto nas laterais. Usa óculos escuros, jaqueta preta de couro, calça preta e botas de motociclista. Não há barba nem bigode. O rosto carrega um sorriso discreto e tranquilo — não é um sorriso aberto, mas firme, de quem está confortável no caminho.
A moto “Gatuna” ocupa boa parte da metade inferior da imagem. É uma estradeira robusta, estilo Harley-Davidson. Predomina o preto no corpo e nos paralamas. O tanque é vermelho vivo e nele está escrito “Gatuna” em amarelo. O motor cromado reflete a luz do dia. Há alforjes laterais pretos na parte traseira.
À esquerda da imagem, correndo paralelos à estrada, aparecem trilhos de trem. Eles seguem em perspectiva, afinando até o horizonte. Entre os trilhos há pedras e madeira visíveis.
A rodovia está à direita dos trilhos. É uma estrada asfaltada, com faixa amarela central, que também se afunila ao longe.
No fundo, há uma pequena cidade discreta: casas baixas, telhados avermelhados e uma igreja com torre e sino visível. Ao redor, campos verdes e vegetação típica do interior paulista. O céu está azul, com nuvens brancas suaves. A iluminação é diurna, clara e equilibrada — não há sombra dramática nem clima pesado.
A sensação geral da imagem é de movimento calmo, pertencimento e continuidade histórica: trilho de um lado, rodovia do outro, e o cego no meio dessa transição, firme na Gatuna.

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