Capítulo 9: Raiz não faz barulho

🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado

📖 Pare, leia e reflita

A Gatuna diminui antes de eu pedir. Quando isso acontece, sei que não é distração. É aviso. Algumas cidades não querem ser atravessadas,  querem ser sentidas. Herculândia- SP é assim. Ela não se apresenta. Ela espera.

Aqui, o tempo não corre. Ele trabalha. O cheiro de terra recém mexida chega antes das vozes, antes das casas, antes das histórias contadas em palavras. Descubro que essa cidade aprendeu a sobreviver fazendo duas coisas ao mesmo tempo: colhendo rápido e esperando muito. O amendoim sustenta o agora. As mudas, cuidadas em chácaras, apostam num futuro que quem planta talvez nunca veja.

A moto para perto de uma delas. Escuto água correndo em mangueiras finas, passos lentos, mãos que lidam com plantas pequenas demais para chamar atenção. Alguém comenta, quase como quem não percebe a grandeza do que diz, que dali saem árvores para outras cidades. Herculândia não cresce só para si. Ela espalha vida.

A Gatuna ronca baixo, cúmplice. Entendo o recado, raiz não faz barulho quando cresce. E talvez por isso seja tão forte. Aqui não há monumentos disputando olhares. Há permanência disputando o tempo.

Sou cego, mas reconheço quando um lugar escolheu resistir sem espetáculo. Tudo acontece abaixo da linha dos olhos, no nível do chão, onde só quem se abaixa entende.

Saio de Herculândia diferente. Com a certeza de que quem aprende a viver de raiz não teme o vento. E isso, para mim, é uma das formas mais silenciosas — e mais profundas — de superação.

Tem lugares — e pessoas — que não fazem barulho quando vencem.
Elas só criam raiz.

Qual foi a fase da sua vida em que você precisou crescer em silêncio, sem aplauso, sem vitrine, só insistindo?
Se quiser, deixa aqui nos comentários. Eu leio tudo.
Às vezes, a força de alguém ajuda outra pessoa a continuar.


Descrição da imagem:

A imagem é uma ilustração colorida, com textura de pintura artística, em luz natural de dia.

No primeiro plano, à esquerda, está o protagonista da série: um homem cego, por volta de 50 anos, alto, forte e de postura segura. Ele usa boina escura, óculos escuros, jaqueta de motoqueiro, calça resistente e botas pretas. Não há capacete. O cabelo é curto e castanho. O rosto traz um sorriso discreto, calmo, de quem observa o mundo por outros sentidos. Na mão direita, ele segura uma bengala branca, apoiada no chão, indicando sua cegueira de forma natural e respeitosa.

Ao lado dele, ocupando o centro da imagem, está a moto A Gatuna: uma estradeira no estilo Harley-Davidson, robusta, com muito metal cromado. A moto é preta, com o tanque vermelho, onde se lê claramente o nome “Gatuna” em letras amarelas. A moto está parada, levemente inclinada no descanso, transmitindo sensação de pausa e escuta.

No chão, à frente da moto, há mudas de plantas em pequenos sacos pretos, organizadas com cuidado. Uma mangueira verde despeja água lentamente sobre a terra, formando um pequeno fio de água que corre pelo solo seco. Esse detalhe reforça a ideia de cultivo, raiz e crescimento silencioso.

O plano de fundo mostra uma paisagem rural da Alta Paulista: campos de terra arada, vegetação baixa e, mais ao longe, a silhueta discreta de uma cidade pequena. É possível perceber casas simples, uma igreja e uma caixa d’água elevada, tudo sem destaque exagerado, a cidade aparece como presença silenciosa, não como protagonista.

Na parte superior da imagem, há uma faixa horizontal com o título da série escrito:
“O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado”.

Na parte inferior, também em faixa discreta, aparece a assinatura do capítulo:
“Capítulo 9: Raiz não faz barulho”.

O clima geral da imagem é de calma, resistência e profundidade. Nada é apressado. Tudo sugere que a força está no que cresce devagar, rente ao chão, exatamente como o texto propõe.

 

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