🏍️😎🧑🦯 Série - O Cego e Sua Moto: Entre o Real e o Imaginado
💡 Há lugares que não pedem licença para entrar na gente.
Foi assim quando a Gatuna desacelerou ao entrar em Quintana. Pequena no tamanho, imensa no silêncio que carrega. Sinto o estalo do metal quente do motor esfriando, um som seco que marca a nossa chegada.
Dizem que a cidade nasceu de um quintal, uma pequena quinta perdida entre trilhos e vontades. Antes de ter nome, já tinha espera. Antes de ter igreja, já tinha fé. Antes de ter estação, já tinha gente sonhando com chegada.
Eu não vejo Quintana com os olhos. Vejo com o que ficou no ar.
Sinto o eco distante do trem que um dia prometeu futuro, o barulho manso da terra sendo mexida à mão, o sotaque misturado de quem veio de longe para fincar raiz. Há um cheiro de café passado sem pressa, de madeira antiga aquecida pelo sol, de conversa baixa atravessando a tarde. É o "real" do olfato encontrando o "imaginado" da minha mente.
A moto para. O tempo também.
Quintana me parece dessas cidades que aprenderam a existir sem pressa. Que foram distrito, depois outra coisa… até entenderem que ser cidade é, antes de tudo, permanecer. Aqui, o relógio não manda. Ele acompanha.
Imagino a praça como quem tateia uma lembrança: passos conhecidos, bancos que guardam confissões, árvores que sabem segredos. Cada rua parece repetir um nome, cada esquina carrega alguém que ficou. O chão guarda histórias que não entraram nos livros, mas que sustentam o mundo.
Ligo a Gatuna outra vez. A vibração no guidão me avisa que é hora de seguir. Levo comigo o que não cabe no mapa. Porque há lugares que não são ponto de passagem. São ponto de memória.
👉 E na sua cidade? O tempo corre contra você ou ele para um pouco para tomar um café na calçada? Me conta aqui nos comentários.

Descrição da imagem:
A imagem é uma ilustração colorida, com aspecto de pintura, iluminada por luz natural do dia.
No centro da cena está um homem adulto, maduro, alto e forte, com postura tranquila. Ele usa boina escura e óculos escuros, que fazem parte de sua identidade visual. Veste jaqueta preta de motoqueiro, calça jeans e botas resistentes. Seu rosto está levemente voltado para frente, com um sorriso discreto, transmitindo serenidade e familiaridade com o caminho.
Ao seu lado está a moto chamada Gatuna. É uma motocicleta grande, de estrada, no estilo das motos clássicas americanas. A estrutura é predominantemente preta. O tanque é vermelho e traz escrito, em letras amarelas, o nome Gatuna. O guidão é largo, o banco é baixo e confortável, e há bolsas laterais presas à moto, sugerindo viagem longa e permanência na estrada. A moto está parada, como se também estivesse em descanso.
O fundo da imagem representa a cidade de Quintana de forma sutil e afetiva. Ao fundo aparece uma igreja antiga, clara, com torre e sino. Próximo a ela, vê-se uma linha férrea e uma placa de sinalização de trem, remetendo à origem ferroviária da cidade. Há bancos de praça, árvores frondosas e postes antigos. As construções são baixas, simples, típicas de uma cidade pequena do interior paulista.
O ambiente transmite silêncio, calma e suspensão do tempo. Nada parece em movimento rápido. A sensação é de pausa, memória e permanência, como se a cidade respirasse no mesmo ritmo do viajante.
Na parte superior da imagem existe uma faixa horizontal com o título da série, escrito de forma clara e elegante:
“O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado”.
Na parte inferior, outra faixa discreta identifica o capítulo com o texto:
“Capítulo oito: Quintana, o quintal do tempo”.
A imagem como um todo sugere um encontro entre estrada, memória e sensação, mostrando um viajante que não observa a cidade com os olhos, mas a percebe pelo som, pelo cheiro e pelo tempo que ela oferece.
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