📢 Capítulo 06: Alô Pompeia, tô na Via Expressa

🏍️😎🧑‍🦯Serie - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado

📖 Via Expressa - ritmos, movimentos  e sons

Atravessamos o portal da cidade e adentramos em Pompéia, a Cidade Coração. Gatuna buzina e ronca sem parar, pois ela sabe que aqui é a terrinha, o onde nasci e vivi minha infância e adolescência.

Para quem mora por aqui, o trecho urbano da Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a SP-294, é chamada de Via Expressa. Um espaço onde os veículos passam com mais intensidade, tanto na quantidade quanto na velocidade. Um território de tensão, uma fronteira no qual a cidade e a rodovia ainda tentam se tolerar.

Lembro das travessias quase impossíveis de quando enxergava, o medo que eu fingia não ter, a coragem que eu queria que acreditassem que eu tinha. Hoje, sem a visão, mas com outros sentidos mais acordados, entendo: ninguém cruza a Via Expressa só com o corpo. Cruza-se com cálculo. Com atenção. Com cautela.

Prossigo devagar, Quem não vê aprende a sentir antes de acelerar. É então que sinto os sons que dão ritmos para Pompéia. O ronco da Gatuna se mistura com a sirene da Jacto, implacável, marcando o compasso do trabalho. Logo depois, firme e paciente, vem o relógio da Igreja Matriz, suas badaladas lembrando que o tempo tem vontade própria — e nunca corre do mesmo jeito que a estrada.

Incrível, entre motores, sirenes e badaladas, percebo que Pompéia pulsa em um compasso próprio, feito de memórias e de movimentos. Cada som é um fio que me costura de volta à cidade, lembrando que, mesmo sem enxergar, ainda caminho dentro dela, guiado não pelos olhos, mas pelo coração que reconhece suas batidas.

Nessa toada sigo pela Via Expressa, quando percebo que sou atraído por uma zona de convergência sonora... E então sinto: há um ponto na Via Expressa onde os sons não apenas passam — eles se encontram. Uma dobra sonora da cidade. E é para lá que Gatuna me puxa. O Capítulo 07 nasce desse chamado. Até lá!


Descrição da imagem:

Ilustração colorida em estilo pictórico semi-realista, ambientada em plena luz do dia. Em primeiro plano, um homem cego, por volta dos 50 anos, de porte forte, veste boina, óculos escuros, jaqueta, calça e botas de motoqueiro. Ele conduz uma motocicleta estradeira de estilo Harley-Davidson, preta, com tanque vermelho onde se lê “Gatuna” em amarelo. O personagem apresenta postura segura e um sorriso discreto.

Ao fundo, aparece a cidade de Pompeia (SP), com elementos urbanos reconhecíveis: o portal de entrada com a inscrição “Pompeia”, a torre da Igreja Matriz com relógio, a estrutura industrial da Jacto e o tráfego intenso da Via Expressa, incluindo carros e semáforo. Linhas gráficas sugerem ondas sonoras próximas aos edifícios, reforçando o aspecto sensorial da cena.

Na parte superior da imagem, há uma faixa com o título da série: “O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado”. Na parte inferior, uma assinatura discreta identifica: “Capítulo 06: Alô Pompeia, tô na Via Expressa”. O conjunto transmite movimento, ritmo urbano e um clima aventureiro sensorial.



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