O Barquinho
Quando o futuro parecer incerto demais, pouse os pés no presente!
Seu Geraldo olhava pra porta da sala 4 como quem espera um veredito. Fazia quarenta minutos. O relógio da parede tinha parado nas onze e dezoito, mas ninguém tinha reparado, ou ninguém tinha coragem de dizer.
Ao lado dele, a neta, seis anos, dobrava um papel. Dobrava errado, desdobrava, tentava de novo.
— Vô, me ajuda aqui, essa dobra não quer ficar.
Ele olhou pro papel. Depois pra porta. Depois pro papel de novo.
As mãos dele, que naquela manhã não tinham parado de tremer só de pensar no que o médico ia dizer, pegaram o papel da menina. Dobra aqui, vira ali, aperta a quina. Um barquinho foi nascendo entre os dedos grossos dele, devagar, sem pressa nenhuma, porque um barquinho de papel não se importa com o que vai acontecer daqui a dez minutos. Ele só existe enquanto está sendo dobrado.
— Pronto.
A menina pegou o barquinho, girou ele na mão, feliz com a coisa mais simples do mundo. E Seu Geraldo, por um instante, só um instante, esqueceu da sala 4.
Não porque tinha parado de se importar com o resultado. Mas porque as mãos dele, ocupadas com uma dobra de papel, não tinham espaço sobrando pra carregar o medo do amanhã.
É engraçado como o corpo sabe fazer isso e a cabeça não. A cabeça insiste em viver lá na frente, imaginando cenário depois de cenário, ensaiando dor que ainda nem chegou. Mas as mãos, quando estão ocupadas de verdade, dobrando um barquinho, servindo um café, segurando outra mão, as mãos só sabem viver agora.
A porta da sala 4 abriu. A enfermeira chamou o nome dele.
Seu Geraldo se levantou. Antes de entrar, olhou pra neta, que já tinha feito o barquinho navegar por cima da cadeira de plástico azul, rindo sozinha daquele nada que pra ela era tudo.
Ele entrou na sala sorrindo e levando, sem saber, uma coisa que nenhum exame consegue medir: os últimos dez minutos em que esteve, de corpo inteiro, presente.
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