O Barquinho

Quando o futuro parecer incerto demais, pouse os pés no presente!


Descrição da imagem  A ilustração mostra uma sala de espera tranquila, banhada pela luz suave e dourada do fim da tarde.  Em primeiro plano, um homem idoso está sentado ao lado de uma menina de aproximadamente seis anos. Ele usa uma boina marrom, óculos e roupas em tons terrosos. Com as mãos, está terminando de dobrar um pequeno barco de papel. A menina acompanha a atividade sorrindo, segurando o barquinho junto com ele.  Ao fundo, há uma porta de madeira identificada como “Sala 4”. Próximo a ela, um relógio de parede marca aproximadamente onze horas e dezoito minutos. Algumas cadeiras azuis completam a sala. Sobre uma delas, há outro pequeno barco de papel.  A luz que entra pelas janelas ilumina suavemente os personagens e parte do ambiente, criando uma atmosfera acolhedora e silenciosa. Os tons de madeira, terra, verde e azul são suaves e levemente envelhecidos, como em uma pintura feita à mão.  A cena transmite a sensação de uma espera que, por alguns minutos, deixou de ser apenas espera. O homem, preocupado com o que aconteceria dentro da Sala 4, encontra na simplicidade de dobrar um barco de papel com a neta uma pequena oportunidade de permanecer inteiramente no presente.


Seu Geraldo olhava pra porta da sala 4 como quem espera um veredito. Fazia quarenta minutos. O relógio da parede tinha parado nas onze e dezoito, mas ninguém tinha reparado, ou ninguém tinha coragem de dizer.


Ao lado dele, a neta, seis anos, dobrava um papel. Dobrava errado, desdobrava, tentava de novo.


— Vô, me ajuda aqui, essa dobra não quer ficar.


Ele olhou pro papel. Depois pra porta. Depois pro papel de novo.


As mãos dele, que naquela manhã não tinham parado de tremer só de pensar no que o médico ia dizer, pegaram o papel da menina. Dobra aqui, vira ali, aperta a quina. Um barquinho foi nascendo entre os dedos grossos dele, devagar, sem pressa nenhuma, porque um barquinho de papel não se importa com o que vai acontecer daqui a dez minutos. Ele só existe enquanto está sendo dobrado.


— Pronto.


A menina pegou o barquinho, girou ele na mão, feliz com a coisa mais simples do mundo. E Seu Geraldo, por um instante, só um instante, esqueceu da sala 4.


Não porque tinha parado de se importar com o resultado. Mas porque as mãos dele, ocupadas com uma dobra de papel, não tinham espaço sobrando pra carregar o medo do amanhã.


É engraçado como o corpo sabe fazer isso e a cabeça não. A cabeça insiste em viver lá na frente, imaginando cenário depois de cenário, ensaiando dor que ainda nem chegou. Mas as mãos, quando estão ocupadas de verdade, dobrando um barquinho, servindo um café, segurando outra mão, as mãos só sabem viver agora.


A porta da sala 4 abriu. A enfermeira chamou o nome dele.


Seu Geraldo se levantou. Antes de entrar, olhou pra neta, que já tinha feito o barquinho navegar por cima da cadeira de plástico azul, rindo sozinha daquele nada que pra ela era tudo.


Ele entrou na sala sorrindo e levando, sem saber, uma coisa que nenhum exame consegue medir: os últimos dez minutos em que esteve, de corpo inteiro, presente.



👉🏻 Indicação de leitura:

Você já percebeu que duas pessoas podem viver o mesmo instante e sair dele sentindo coisas completamente diferentes?

O que acontece entre aquilo que percebemos e aquilo que sentimos?

Uma reflexão sobre aquilo que os sentidos percebem e o coração transforma em significado.






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