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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Capítulo 9: Raiz não faz barulho

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pare, leia e reflita A Gatuna diminui antes de eu pedir. Quando isso acontece, sei que não é distração. É aviso. Algumas cidades não querem ser atravessadas,  querem ser sentidas. Herculândia- SP é assim. Ela não se apresenta. Ela espera. Aqui, o tempo não corre. Ele trabalha. O cheiro de terra recém mexida chega antes das vozes, antes das casas, antes das histórias contadas em palavras. Descubro que essa cidade aprendeu a sobreviver fazendo duas coisas ao mesmo tempo: colhendo rápido e esperando muito. O amendoim sustenta o agora. As mudas, cuidadas em chácaras, apostam num futuro que quem planta talvez nunca veja. A moto para perto de uma delas. Escuto água correndo em mangueiras finas, passos lentos, mãos que lidam com plantas pequenas demais para chamar atenção. Alguém comenta, quase como quem não percebe a grandeza do que diz, que dali saem árvores para outras cidades. Herculândia não cresce só para si. Ela es...

📖 CAPÍTULO 8: QUINTANA, O QUINTAL DO TEMPO

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O Cego e Sua Moto: Entre o Real e o Imaginado 💡 Há lugares que não pedem licença para entrar na gente.  Foi assim quando a Gatuna desacelerou ao entrar em Quintana. Pequena no tamanho, imensa no silêncio que carrega. Sinto o estalo do metal quente do motor esfriando, um som seco que marca a nossa chegada. Dizem que a cidade nasceu de um quintal,  uma pequena quinta perdida entre trilhos e vontades. Antes de ter nome, já tinha espera. Antes de ter igreja, já tinha fé. Antes de ter estação, já tinha gente sonhando com chegada. Eu não vejo Quintana com os olhos. Vejo com o que ficou no ar. Sinto o eco distante do trem que um dia prometeu futuro, o barulho manso da terra sendo mexida à mão, o sotaque misturado de quem veio de longe para fincar raiz. Há um cheiro de café passado sem pressa, de madeira antiga aquecida pelo sol, de conversa baixa atravessando a tarde. É o "real" do olfato encontrando o "imaginado" da minha mente. A moto para. O tempo t...

💡 Capítulo 7: Do nada, o tudo

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Só quem sente, percebe! Atraído pelos sons de Pompéia, resolvo continuar passando pelo trecho que a maioria dos moradores da cidade considera o mais perigoso da Via Expressa, a descida do Panelão e do Campão. A Gatuna me leva, e encontramos um ponto exato de latitude e longitude, uma coordenada perfeita onde ocorre uma fusão incrível, uma verdadeira zona de convergência sonora. Primeiro, os sons são tímidos, depois, logo se enchem, vibrantes: as vozes dos alunos das escolas Grupão - EMEF de Pompéia e do CENE - Escola Estadual Cultura e Liberdade. Ali, tudo junto e misturado. O real e o imaginado se fundem no som do futuro. Risadas, chamados, gritos... Um alvoroço de alegria. O burburinho vivo de estudantes aprendendo a ser gente. Eu sorrio. Aquele sorriso largo que a escuridão não consegue apagar. No ronco da Gatuna, me dou conta de que a cidade tem um grito e é um grito bonito. Não é de desespero, mas de vida, de...

📢 Capítulo 06: Alô Pompeia, tô na Via Expressa

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🏍️😎🧑‍🦯Serie - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Via Expressa - ritmos, movimentos  e sons Atravessamos o portal da cidade e adentramos em Pompéia, a Cidade Coração. Gatuna buzina e ronca sem parar, pois ela sabe que aqui é a terrinha, o onde nasci e vivi minha infância e adolescência. Para quem mora por aqui, o trecho urbano da Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a SP-294, é chamada de Via Expressa. Um espaço onde os veículos passam com mais intensidade, tanto na quantidade quanto na velocidade. Um território de tensão, uma fronteira no qual a cidade e a rodovia ainda tentam se tolerar. Lembro das travessias quase impossíveis de quando enxergava, o medo que eu fingia não ter, a coragem que eu queria que acreditassem que eu tinha. Hoje, sem a visão, mas com outros sentidos mais acordados, entendo: ninguém cruza a Via Expressa só com o corpo. Cruza-se com cálculo. Com atenção. Com cautela. Prossigo devagar, Quem não vê aprende a sentir antes de acelerar. É e...