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O Cego que Coleciona Histórias: 6º Encontro

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Até onde vai o preço de dizer não? A sombra da árvore na praça da matriz de São Pedro, segurava o calor da tarde como conversa antiga. O ar parecia suspenso em Tupã- SP. Um motoqueiro passou acelerando, o escapamento estourado rasgando o silêncio da rua. Toc-Toc-Toc. A ponta do cajado encontrou a calçada até parar junto ao banco já gasto pelo uso. O Cego percebeu passos firmes se aproximando. A respiração vinha pesada. Não era só cansaço. — Boa tarde… meu nome é Durval. Sou fiscal da prefeitura. Ele limpou a garganta, como quem organiza o que ainda está confuso por dentro. — Posso te contar algo muito sério que aconteceu comigo? O Cego inclinou levemente a cabeça. — Ontem fechei uma lanchonete na avenida Tamoios. Falta de higiene. Um carro passou com o som grave vibrando o ar ao redor. — O dono me chamou no canto… disse que dava um jeito. Durval parece ter chutado um pedregulho. — Jeito quer dizer dinheiro. O vento mexeu as folhas do galho acima deles. — Eu disse não. O silêncio que ve...

O cego que coleciona histórias: 5º Encontro

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Já sentiu que não encontrou algo — mas foi encontrado? Certa vez, Raul Seixas cantou que teve um sonho de sonhador... E foi numa vibração parecida que o Cego entrou em um transe profundo, sendo apresentado à história do cajado. O cajado não foi fabricado. Foi tecido pelo tempo. Dizem que nasceu de uma árvore crescida numa encruzilhada antiga, lugar onde viajantes descansavam antes de escolher caminhos. Ali ficaram despedidas, promessas e segredos soprados ao vento. A madeira se desenvolveu escutando tudo isso e muito mais. Antes de chegar na casa do cego, em Tupã, passou por outras mãos... Uma benzedeira do cerrado. Um monge baiano. Uma contadora de causos à beira do rio Amazonas. E um ancião que dizia interpretar o silêncio nos pampas. Nunca procurou força. Procurava repouso. E naquele sonho o cego teve algo revelador... Toc-Toc-Toc. O cajado que, no dia anterior, havia sido deixado no portão de sua casa, fora trazido pelo Vento do Encontro. Não foi acaso. Foi escolha! Ainda atordoado...

O Cego que Coleciona Histórias: 4º Encontro

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Que tipo de noite faz alguém parar no portão de um estranho? A varanda cheirava a chuvas de Março. O balanço rangia devagar, marcando o tempo com o ventilador de teto que girava preguiçoso. Passos na calçada pararam no portão da casa do Cego. — Sou a Tiana. A que mudou pra casa da frente. A voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho distante de um carro subindo a ladeira. — Senta aqui. O tecido da cadeira esticou quando ela se acomodou. Um isqueiro clicou. Fumaça quente passou perto do rosto dele. — Eu vi o senhor aqui ontem. Sozinho. Pensei que talvez… o senhor entendesse de noites que pesam. Silêncio. Só o balanço e o cigarro crepitando. — Noite pesada tem cheiro diferente? Ela riu curto, seco. — Tem. Cheiro de coisa que a gente jurou que deixou pra trás. E o corpo lembra antes. Ele deixou o balanço marcar mais dois compassos. — Faz quanto tempo? — Três anos, sete meses… e uns dias. — A voz falhou no final. — Mas hoje o entregador de gás tinha o mesmo cheiro que os antigos “amigos” ...

O Cego que Coleciona Histórias: 3º Encontro

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Quando foi que a mentira começou a pesar mais que a própria vida? O fim da tarde pousava devagar sobre as casas da rua. O radinho de pilha tocava sertanejo em cima da mesa. De vez em quando uma moto passava levantando poeira fina do asfalto gasto. Na varanda, o Cego estava sentado na cadeira de madeira. O cajado atravessado entre as mãos. O portão rangiu. Passos demorados subiram os três degraus da varanda. O homem limpou a garganta antes de falar. — Sou o Divino… seu vizinho da outra esquina. Acho que o senhor já deve ter ouvido falar de mim por aí. O Cego inclinou levemente a cabeça. — Pode chegar. A voz do homem tinha aquele esforço de quem está acostumado a falar alto… mas agora parecia menor. Um molho de chaves girava nervoso dentro da mão dele. — O povo diz que eu conto vantagem demais. O vento mexeu nas folhas da árvore defronte da casa. Divino soltou um riso curto. — Eu dizia que tinha negócio em Marília… caminhão rodando… dinheiro entrando. O molho de chaves parou de girar. Si...

O Cego que Coleciona Histórias: 2º Encontro

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Quanto custa descobrir que a própria esperança também pode enganar a gente? Era meio de tarde quando o ferro do portão do Cego tremeu devagar. Não foi batida forte. Foi como quem chama sem querer fazer barulho demais. Na rua, uma moto passou levantando poeira seca. Ao longe, um vendedor de pamonha gritou seu pregão arrastado. Do lado de fora, alguém respirava fundo antes de falar. — Sou a Laura… moro ali na rua de baixo… quase em frente da venda do seu Anselmo. O Cego abriu o portão. Ela entrou sem pedir licença. O chinelo raspava no chão como quem ainda não decidiu se fica ou volta. Por alguns segundos só se ouviu o pano da bolsa sendo apertado. — O senhor já ouviu falar no golpe do bilhete premiado? O Cego disse: Já ouvi falar.... A mulher soltou um riso curto. Riso que parecia pedir desculpa. — Pois é… eu ouvi também… mas achei que comigo não ia acontecer. Um caminhão passou na avenida próxima. O cajado vibrou forte nas mãos do cego. Toc-Toc-Toc. Ela continuou: — O homem chorava… di...

O cego que coleciona histórias: O primeiro encontro

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Manhã de quarta-feira sossegada em Tupã. O cego estava sentado em sua poltrona ouvindo os sons da cidade quando um vento veio forte. Logo depois, a campainha tocou. Ele se levantou para atender e, ao perguntar quem era, ouviu apenas toc-toc-toc, madeira batendo no ferro do portão. Não havia passos se afastando. Nem respiração do outro lado. Só o vento mexendo nas folhas da varanda, como se tivesse pressa de ir embora depois da entrega feita. Abriu. — Quem está aí? Silêncio. A mão buscou o vazio até encontrar algo encostado na grade. Madeira. Alta. Fria. Passou os dedos com cuidado, como quem lê um rosto desconhecido. Sentiu marcas profundas, rachaduras, partes lisas de tanto uso. Aquilo parecia ter andado muito até chegar aqui, pensou o cego Não havia ninguém. Só o cajado. Levou-o para dentro mais por educação que curiosidade, como se recolhesse algo esquecido por um visitante distraído. Encostou-o na parede e o dia seguiu comum demais para carregar mistério: café morno, o rádio distan...

📖 Capítulo 12: O texto final ou um manifesto?

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado A Gatuna está desligada. Mas eu não. Percorri trevos, cruzamentos, trilhos antigos, cidades que me formaram antes de eu perceber que estavam me ensinando. Pompéia me deu identidade. Quintana me fez pensar o silêncio. Herculândia mostrou que o mapa nem sempre explica as divisões. Tupã me ensinou permanência. No começo da série, muitos acharam que era sobre uma moto. Alguns pensaram que era sobre cegueira. Mas sempre foi sobre vínculo. Quando perdi a visão, não perdi a estrada. Perdi a pressa. Foi ali que entendi o que já tinha lido e não vivido: o essencial não se oferece aos olhos. Oferece-se ao tempo. A cada capítulo, a estrada deixou de ser chão e virou complemento. O ronco da Gatuna deixou de ser barulho e virou memória vibrando no peito. A cidade deixou de ser cenário e ganhou vida. E com tudo isso, aprendi que domesticar não é dominar. É cuidar do que nasce entre dois. Entre um homem e sua máquina. Entre um pai e seu...

Capítulo 11: No fio da história

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🏍️😎🧑‍🦯 Série – O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pompéia, Quintana, Herculândia e Tupã Matas, café, Trilhos e divisões invisíveis Estou no trecho. A Gatuna avança pela SP-294. O asfalto vibra sob os pneus como se guardasse memória. Não enxergo as placas, mas reconheço o território pelo som: o vento muda, o eco se abre, o chão responde. A rodovia fala e eu escuto. Antes da estrada, houve trilho. Antes do trem, o café. Antes do café, mata fechada. E antes da mata cortada, passos indígenas que conheciam cada dobra desse chão. Essas cidades não nasceram isoladas. Elas se dividiram, como células de um mesmo corpo. Pompéia vem primeiro no pensamento. Não só como cidade, mas como estrutura. Chão central, organizador, administrativo. Foi chão-mãe. Dela partiram limites, decretos, desmembramentos e cidades inteiras. Quintana nasce desse movimento. Primeiro lavoura, depois distrito, depois cidade. Mudou de nome, de gestão, até firmar identidade própria. Filha do trilho e da re...

📖 Capítulo 10: Tupã à sombra da figueira

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado Entrei em Tupã pelo trevo principal como quem retorna ao que escolhi um dia. A Gatuna não pediu pressa. Apenas virou o guidão e me conduziu até a sombra da figueira. Eu sei: ali, o tempo costuma respeitar quem senta. Desliguei a moto. Comprei um copo de caldo de cana, gelado, doce na medida certa. Tupã tem dessas coisas: não complica o que pode ser simples. Fiquei ali, ouvindo a cidade passar sem me atravessar. Foi nesse contexto que desabafei com a Gatuna. Contei que decidi morar em Tupã sem nunca ter vindo antes. Uma escolha pensada, adulta, mas sem garantias. Disse que cheguei e fiquei, e que a cidade não me perguntou nada, apenas abriu espaço para que eu sustentasse minha própria decisão. Falei dos meus filhos, nascidos ali, enquanto a cidade seguia funcionando. Tupã não parou para celebrar a vida. E talvez por isso mesmo tenha me ensinado tanto sobre continuidade. Disse que foi ali que me realizei como professor. Sal...

Capítulo 9: Raiz não faz barulho

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🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Pare, leia e reflita A Gatuna diminui antes de eu pedir. Quando isso acontece, sei que não é distração. É aviso. Algumas cidades não querem ser atravessadas,  querem ser sentidas. Herculândia- SP é assim. Ela não se apresenta. Ela espera. Aqui, o tempo não corre. Ele trabalha. O cheiro de terra recém mexida chega antes das vozes, antes das casas, antes das histórias contadas em palavras. Descubro que essa cidade aprendeu a sobreviver fazendo duas coisas ao mesmo tempo: colhendo rápido e esperando muito. O amendoim sustenta o agora. As mudas, cuidadas em chácaras, apostam num futuro que quem planta talvez nunca veja. A moto para perto de uma delas. Escuto água correndo em mangueiras finas, passos lentos, mãos que lidam com plantas pequenas demais para chamar atenção. Alguém comenta, quase como quem não percebe a grandeza do que diz, que dali saem árvores para outras cidades. Herculândia não cresce só para si. Ela es...

📖 CAPÍTULO 8: QUINTANA, O QUINTAL DO TEMPO

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O Cego e Sua Moto: Entre o Real e o Imaginado 💡 Há lugares que não pedem licença para entrar na gente.  Foi assim quando a Gatuna desacelerou ao entrar em Quintana. Pequena no tamanho, imensa no silêncio que carrega. Sinto o estalo do metal quente do motor esfriando, um som seco que marca a nossa chegada. Dizem que a cidade nasceu de um quintal,  uma pequena quinta perdida entre trilhos e vontades. Antes de ter nome, já tinha espera. Antes de ter igreja, já tinha fé. Antes de ter estação, já tinha gente sonhando com chegada. Eu não vejo Quintana com os olhos. Vejo com o que ficou no ar. Sinto o eco distante do trem que um dia prometeu futuro, o barulho manso da terra sendo mexida à mão, o sotaque misturado de quem veio de longe para fincar raiz. Há um cheiro de café passado sem pressa, de madeira antiga aquecida pelo sol, de conversa baixa atravessando a tarde. É o "real" do olfato encontrando o "imaginado" da minha mente. A moto para. O tempo t...

💡 Capítulo 7: Do nada, o tudo

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 🏍️😎🧑‍🦯 Série - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Só quem sente, percebe! Atraído pelos sons de Pompéia, resolvo continuar passando pelo trecho que a maioria dos moradores da cidade considera o mais perigoso da Via Expressa, a descida do Panelão e do Campão. A Gatuna me leva, e encontramos um ponto exato de latitude e longitude, uma coordenada perfeita onde ocorre uma fusão incrível, uma verdadeira zona de convergência sonora. Primeiro, os sons são tímidos, depois, logo se enchem, vibrantes: as vozes dos alunos das escolas Grupão - EMEF de Pompéia e do CENE - Escola Estadual Cultura e Liberdade. Ali, tudo junto e misturado. O real e o imaginado se fundem no som do futuro. Risadas, chamados, gritos... Um alvoroço de alegria. O burburinho vivo de estudantes aprendendo a ser gente. Eu sorrio. Aquele sorriso largo que a escuridão não consegue apagar. No ronco da Gatuna, me dou conta de que a cidade tem um grito e é um grito bonito. Não é de desespero, mas de vida, de...

📢 Capítulo 06: Alô Pompeia, tô na Via Expressa

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🏍️😎🧑‍🦯Serie - O cego e sua moto: Entre o real e o imaginado 📖 Via Expressa - ritmos, movimentos  e sons Atravessamos o portal da cidade e adentramos em Pompéia, a Cidade Coração. Gatuna buzina e ronca sem parar, pois ela sabe que aqui é a terrinha, o onde nasci e vivi minha infância e adolescência. Para quem mora por aqui, o trecho urbano da Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a SP-294, é chamada de Via Expressa. Um espaço onde os veículos passam com mais intensidade, tanto na quantidade quanto na velocidade. Um território de tensão, uma fronteira no qual a cidade e a rodovia ainda tentam se tolerar. Lembro das travessias quase impossíveis de quando enxergava, o medo que eu fingia não ter, a coragem que eu queria que acreditassem que eu tinha. Hoje, sem a visão, mas com outros sentidos mais acordados, entendo: ninguém cruza a Via Expressa só com o corpo. Cruza-se com cálculo. Com atenção. Com cautela. Prossigo devagar, Quem não vê aprende a sentir antes de acelerar. É e...